28 de set de 2011

Fases de mania


Eu estive llegalzinho ( com 2 ll mesmo) nessas últimas 72 hs. Nem a prova de latim me tirou do sério. O professor é péssimo, mas é um puta camarada pra conversar sobre programação de softwares e trocar umas  dicas de "craker de humanas", falar sobre a Apple e afins ; também tem ótimas tiradas, além de reconhecer a limitação da sua didática, o que é de uma humildade admirável num curso  recheado  de arrogâncias  como aquele... Serviu como inspiração pra que eu também reconhecesse as minhas em domar todas as mil declinações, e encarasse, sem desespero, um resultado futuro sofrível, mas passível de aprovação...tava llegalzinho . 

Comecei a perder o pique desse raro bem-estar na saída e fiquei pra ver pessoas da mpb tocar...É foda, mas acho engraçado me infiltrar e atestar o quão eu não nasci praquilo. Se essa de "quem não gosta de samba bom mano não é" for real, eu sou o Mussolini! Um crápula. Me dão o violão, sem nem saber meu nome. Depois de muito auê xenga-lenga-nacionalista, toco Harrison e Jonny Rivers. "Ih, ele gosta de Nirvana" acusam. Eu tava com uma camisa do Red Hot, não entendi a afronta, mas enfim... Pediram pra que eu tocasse música brasileira; devolvi a dizer que música brasileira é a dos índios, que já foram mortos. O desafio tava bom e tavam pagando Heinekens pra gente...tinha gente fumando de tudo e me lembro que também fumaceava quando ansioso e que, naquele instante, não me tentavam os picos de nenhuma cor. Fui ficando constrangido depois de uma música e meia, mas sinto que abrandei algumas visões. Tocaram até Ritinha Lee depois disso...meno-male.

Hora de ir , e a girl-da-bossa agradece por  eu ter dado uma afinação decente no instrumento.

 __"Você gosta de mulher? __Eu, ao responder sobre afinações.

__ "AH!!"__ela se desmonta , admitindo com surpresa e com gosto o gosto pela tal surpresa.

__ "...EH,  er... gosto, gosto, só de mulher, e é bom..."

 Ufa! enfim uma coisa em que nós dois concordávamos naquela bagaça musicólica. Breaking the Law na Hard day's night.

25 de set de 2011



__ Aí, são eles mesmo, não?

__ É, são.

__ Como "é-são?" com essa cara xoxa, man?

__ A gente que é vizinho acostuma, dona... Já gritei bastante.

__ É o quê que vai ser?

__ Gravação de comercial, eu acho. Falaram que o John vai separar de novo. Então tem que entrar receita, tem que sair e entrar...

__ Separar? nossa... mas é bom né, ela é tão creppy, man...

__ Pois é. Tem hora que cansa. Já deu pra ele, pelo que me disseram a Cintya e o...

__ Você conhece a Cintya, man? Que puxa-sticky, man!

__ Só conversei umas três, quatro, cinco vezes com ela...vão voltar os dois... na verdade já estão...mas é aqui entre nós ,viu?

__ Puxa, man. Nice-tudo! Eles tão de mals né, man?

__ Nada, não é nada. Já tem mais três discos na manga. Vai ser gravado com som de panelas e freadas de carros...e outros dois com espirros de recém-nascidos. A esposa do George é que estava mal esses dias, pelo que pude apurar. O Mr. Clapton sempre a leva pra passeios...acho que é neurose, ou doença nervosa, tadinha. Ele vai entrar de vez pra banda...

__ Puxa, que max-wally-uau!!! É bom conversar com que sabe das coisas...

__ É, senhorita... esses Who é foda.

__ Ahãm????

__ Beatles, eu falei...E Você, tem telefone?

24 de set de 2011

Imaginando diálogos. Um começo pro fim.


__ Ringo, tem como o senhor avisar este ilustre cavalheiro de branco ao meu lado que George Martin ligou ontem querendo explicações sobre o sumiço daquelas pautas que estavam na sala 12 do estúdio, por gentileza.

__ Jonny, o Paully falou que...

__ Ouvi, já, caralho. George, fala pra esse do meu lado que eu quero passar aquela letra que bolei ontem, e preciso das linhas do baixo.

__ Paully, o Jonny quer gravar aquele insight de ontem. O sintetizador foi roubado. Vamos avisar o Martin...

__Ringo, diga a este cavalheiro que não posso gravar agora, pois meu Hafner não serve pra qualquer coisinha. diga também para que este nobre senhor de branco escolha melhor as marcas de cigarro que consome, e apague este fedor do meu lado, por favor.

__ Johnny,  o Paully disse que...

__ É, já sei, seu porrinha....

__ Porrinha? Eu sou mais velho que você, Johnny...

__ Foda-se. Não quero cigarro de moleque. George, fala pra esse filhinho da mamãe ir got a life.

__ Ringo, diga para este senhor que quem vive do lado de vampiros não pode mandar ninguém a lugar algum.

__ Jonny, o P...

__ Já sei, seu porrinha.  Pra quem é ignorante das paradas, não sabe da arte que ela tem, das coisas que ela faz e fez pelo sempre por todos esses anos, não pode falar nada também, fuck off. George, fala pro ...

__ Não vou dizer nada, rapazinho...

__ O quê, Quaryman??? você é mais novo do que eu... George...

__ Foda-se. Eu te ensinei a tocar como um homem, do twist às ballads , mas você se esquece. Não é assim que você trata de tudo?

__ Ringo, fale com todos nós, a que horas começa a sessão?

__  Às 15hs , folks...às 15hs.


E Ringo passou a ser o último Beatle vivo naquela tarde.

Um começo



    Bom, ideia de fazer o blog veio da necessidade de arranjar um veículo de expressão válido praquilo que eu achasse relevante ser veiculado. Parece uma redundância absurda esse primeiro parágrafo, mas não é, porque não é tão óbvio que o pensamento se saia maior do que ele próprio, podendo portanto ficar no neurônio contido sem nenhum gasto, não virando palavra, ato, abraço...Mas eu sou sinestésico, e ainda que não fosse, represar pra mim mesmo o rio dos sentimentos seria como viver a vida em preto-e-branco, que a maioria das pessoas se propõe a viver, esse lance de se contentar com a metade da metade, da metade...quase-nada...

    Durante essa longa vida de soro estragado, não-blasé, não-pasteurizado, me acusaram muito de ser excêntrico, maluco, impróprio, antissocial, impulsivo, egocêntrico, curioso, aquele que vai sem duvida fazer com que duvides... As pessoas sempre gastaram mais de 22 segundos, exatamente 22 e não mais, pensando em que tipo de gente estavam em diante quando comigo parlavam. Na infância isso sempre me irritou, na adolescência me levou à crise, e agora me faz sentir um orgulho profundo, quase narcísico, de ser esse espírito quente, esse vento doido que bate nos outros e em si mesmo enquanto os mais temerosos trancam as portas, esse objeto-dejeto, desejo selvagem incontido...Um mosh em cima seu bolo de casamento, um piss-off dourado regando o seu intacto campo de tulipas de auditório...um bicho, um bicho.

Um começo

Parece que eu já me senti desafiado o bastante  por esse boga, da maneira como o tenho feito. Nada me anima aqui. Vou tentar então coisas novas, falar sobre a minha vida nele, sobre detalhes de como a minha cabeça funciona, de como as idéias passam, de como os sonhos ficam e de como eu tento converter as ideias que tenho em poesia. Esse estilo confessional nunca foi minha praia, mas parece um momento importante de tentar fazê-lo. Falar da minha forte fragilidade, de como a vida é intensa e importante e de como me entedia o fato da surpresa que muitos tem ao me encontrar nos seus caminhos, e de como eu os aviso sobre tudo o que desejo e quero, e que mesmo assim ignoram e fingem não ver que já avisei. Não quer dizer que a poesia e a mentira sumam, mas vão dar mais espaço ao que acontece no backstage dela. Uma parada mais livre.

23 de set de 2011

O neurônio e a Idéia

 
 O Neurônio e a idéia

G.R.U.D.A (2011)

GRUDA


Não pretendo ser
meio feliz
feito pizza murcha largada
eu quero estar quente e todo
sobre a mesa, brigando com a boca
dizendo absurdos e me diluindo pelo sangue...

Esse jogo de metades
de se ponderar e e esfriar
do que pode ou não pode ser dito
e queimar a matéria de que sou feito
rimo, desisto, me recrio

A minha massa viva e crua escorre
fica vermelho-escura junto de tudo que sinto
e dentro do forno das almas vivas
se incha dos ódios todos
fermenta como quase tudo que eu clamo
para que assim você me parta,
me sirva
e nos coma
sonhando com os olhos secos da hipnose
das massas humanas.
Intensidades.

Anestesia, oh Monalisa...

Anestesia



Não sinto nada além disto.
Todos os meus sentires,
além do dito,
são os mesmos de sempre.
Não há nada de novo no meu riso.
nem há nada de novo no meu entristecer
Todos os meus motivos
estão assim motivados
por razões redundantes que repito.
E em nenhum instante,
sei sentir novamente
alguma novidade de ser

Matando aula de Química.2005.

Luzes de carentes, incompletas verdades montadas
Ou ainda mentiras, em si repletas de cor
Acesa nas noites escuras, escondidas e caladas
Doentes detalhes, movidos por paixão, fé, calor.

No peito, a amarga ausência de culpas
Na carne, suaves meandros de rios em fuga
Pro’nde me vou me acho em teu lado
De pouco, por força, me encanto um bocado

Revisita todas as noites os meus lagos
Do que dispenso, por cansaço, do suor mais salgado
Ou do que dependo, do que me afoga, em doce afago
Ignorarás então a inocência podre dos nossos atos?

...

Parte I 

Ego e tormenta

Sessão III


Penso que eu já tinha dropado , pela semana que se foi após duas de grande luto e desespero, eu mesmo daquela ideia incrível e estranha sobre o vermelho do sangue e outras questões orgânicas; estava agora mais fechado em mim mesmo, que nem uma criança menor no parquinho de marmanjos selvagens, um Simba Safári de desumanos. E toda a minha selva era a minha própria aspirante a terapeuta; eu já tinha pego ou pegado ( porque são muito distintas, assim como distintas e diferentes também as são) o meu atalho e partido rumo à menstruação; tinha deixado de ser homem para virar mulher, pensar como mulher e não como menino; tinha saído de mim como uma visagem torta do outro mundo pra colar minhas atenções no colo do outro, no gosto do outro, no cheiro do outro. Agora eu já havia tudo em mim, minhas emoções de culpas muito bem instaladas e entaladas e ou outro já me enojava. Ela também percorreu hoje o seu próprio atalho em mostra nada, sem ato falho, com mais uma simples pergunta, que passava a bola e transformava esses dois atalhos de uma vez na minha direção. O meu ato. Uma crossroad e um pobre franguinho preto, no meio das encruzilhadas dos supper-eggs

Depois de todo esse mágico esforço de disfarçar caminhos, fingir casualidades, alienar vontades e essências inteiras o trabalho já estava feito, com muita farinha e angu pra adoçar o santo, e eu, sacrificado. Mas agora era final a hora de começar a verter, assim, em tanta beleza quanto verter sugere, mais sangue; não, como eu já gravei, o dela, que na verdade sempre foi mais meu, das minhas ideias e medos pra me desviar do assunto, mas sim o meu verdadeiro esquema de remorsos que me matava, que era menos cíclico, menos bonito e natural. Não poderia passar por um acompanhamento tão nobre e digno e que me custava pouco mais que a minha necessidade em estar ali ,sem me usar de todo o grau de ira e choro que se acumulava pela culpa de não ter vivido o bastante para intervir no mundo do sangue mais relevante. Agora, de madre, mãe-de-santo, de cigana e pitonisa, ela passaria a uma simples e importante tigela de barro, onde a dor e a solidão iriam bater e acumular; respingar nas bordas fazendo graffiti desconexo, dançar no aro superior, quase que caindo pra fora , e retornar ridículo para o meio da sala, para dentro do corpo dela, pra fazer uma poça larga de defeitos, sem freio, sem brilhos, sem vermelho; foi-se uma tarde toda, de boca em boca.


Sessão IV

Os quarimen estavam doidos pra demonstrar todo o seu potencial antepotente. A senhorita Grajew, porém, rondava, reprimia com os olhos, sobrancelhas , com o corpo, não permitia que eles, todos os bichos de mim, dessem a volta pela sala de terapia; talvez ela tivesse medo de que um deles encontrasse a porta, usasse as mãos sutis e espirituais para enganá-la, apalpá-la, fazendo com que lhes fossem vir à vida as quariwomen, e levando a gente a perder o controle dos corpos e das cabeças todas; ou ainda que eles nos dessem a imagem elucidativa de que a alma não fosse una em nenhum de nós, não havendo mais então qualquer razão para a terapia, estudo, teoria freudiana, olhar blasé de superioridade (…) As vezes penso que fui culpado pelas olhadas de dúvida que ela sempre dava, ou por ter sugerido, pela minha franca fraqueza, e então sugado toda essa tal dúvida que Grajew oferecia, ter me transformado em um lúdico duvidoso também...contraindo aquela doença específica da alma retraída e desconfiada.

Era certo que em algum tempo o meu fluxo ocioso e constante deveria ir para a baixada, como água, pra o ponto do mais sem nada que se chama eu, ou ego, ou qualquer coisa assim. Estar diante de Grajew era ser leigo de tudo; leigo dela, como já disse, que fazia com que me insistisse no pesamento fino e infinito, agudo de estar nela, somado ao de ser leigo-leigo, no jeito mai medicoso que há; de não saber os seus métodos, se é que ela teve um ou terá e, finalmente, de não saber sequer dos meus, como que colocar três balões vazios do não-saber naquela sala, e ela como uma grossa agulha nas mãos-moças , para poder tecer uma página, ou pra também estourar o nosso medo.

Ela permaneceu com os olhos fixados nos meus, ou então nos olhos imaginários da parede de gesso dry-wall branca, mais branca e mais bonita do que eu, mesmo que sem olhos vivos ou ouvidos. Eu contei a ela todo o meu breu, o balão vazio da minha tristeza, que se mostrou água em choro, e o choro em pouco, e o pouco em mim, que já não morreria tão vazio, que ia ter pelo menos lágrima branca, não tão branca como as lágrimas sutis dos olhos vazios da parede repetida e admirada, mais ou menos real de gesso, mas ainda cheias de matéria podre e amarga.

E lá era eu de novo, olhando para ela, na direção dos olhos dela, um raio-gama da alma. É claro que essa viagem íntima para dentro de Miriam Grajew não trazia, como já se foi, nenhuma certeza; ao contrário, só me fazia perguntar a mim mesmo sobre a minha saúde frágil, e se aquilo em que eu me via ao vê-la, ao enxergar e passear por cada entrada exposta do seu corpo, por cada brecha bonita e vazada que se deixava a carne em posta, à mostra, meio que gotejante, aos pouquinhos, meio que brilhosa de uma vez que nunca acaba, me transformaria num obcessivo-psicótico ou paranoico, daquele tipo que se esqueceu de ser gente grande e corre atrás de mulher pra correr atrás de si, atrás de suas mediocridades, dos seus complexos de cabra-sem-mamas, sem mães, coisas do supper-egg (…)

Antes que eu me torasse um John H. Junior ou um motorista de táxi pervertido e perverso no filme de sua degenerada cabeça, eu então procurei acender mais as luzes da sala de consulta e olhar pro jeito súbito e não-natural com que vinham à vida os raios claros da fluorescência tubular das lâmpadas altas e frias, pra nos iluminar ao severo custo de todos os impostos, de todos os defuntos que morreram sem vê-la piscar nem que fosse em um menor e enorme sonho, fim de túnel amado e distante. Eu dei-me à luz a mim mesmo; respirei naquele dia tão quente como um douto, mais lento e fundo, fui-me além do saber do certo e do fechado. Abri.

Aquilo que escorregava pelo colo da minha comparsa era só parte inteira do líquido mais claro da bolsa que envolve o conjunto orgânico mais importante e impotente feto-afeto, que ao mesmo tempo processo e veículo de si, fim e meio, razão e choque da minha dor, que de tão forte e cheia de oscilações tonais de riso, a esperança e o desespero ficam brandas e brancas quando se juntam sobre o dentro dos olhos, como um sol em mesmo foco a iluminar o dia e ao mesmo tempo ser a razão para que o dia aconteça ao dizê-lo “dia”; aquela luz que mascara o seu poder mais agudo de torto, fogo, cegueira e morte. Miriam era naturalmente assustada, matura-mente frágil com seu primeiro trabalho de parto das dores emocionais mais cruas. Sim, porque sei que ali, naquela sala, já deviam ter passado muitos nascimentos falhos, fetos sem rosto, sem cabeça, enforcados, sem corpo; partos falhos de filmes, recheios de encenação. Sei, por mais John H. Juunior que seja, que gente muito inadequada frequenta as terapias. Talvez esse tipo de cidadão acredite que possa ter alguma coisa boa de se buscar numa sessão de papeamento com um desconhecido, ou talvez porque haja um modismo, muito influenciado pelo fracasso das fezes ou da fé-caipira-mais-tradicional e por uma reinvenção mais urbana, afetada e perigosa desta, onde o devoto vê no seu terapeuta a ideação de um Xamã ou vidente, capaz de somente com a estrela do olhar requentar como café a alma e fazer brotar a bondade instantânea no middle class mais carrasco e hijo de puta. Também tem aqueles que são influenciado pelo tédio da solidão ou então pela natural e recorrente solidão de seus tédios, e procuram a luz-final por não terem mais o que procurar, como quem vai ao dentista só pra mostrar o quanto os dentes, a gengiva e a língua estão nas suas cores mais corretas e fortes e o quanto o pobre profissional é dependente não de um bem eterno, mas de um mais ou menos vicioso, do mal estar que vai da coceirinha até a dor maior, que de tão distantes se viram numa só; mal-estar constante e intenso da dor(...)

17 de set de 2011

Velvet Revolver Patience

Nina e Lilly estavam deitadas sobre a minha boca
na poesia da madrugada, voz rouca, rouca, rouca...
Embaixo do bloco de metal o quase-irmão me visita
me avisa que dependo delas pra sempre
pra manter me nos trilhos;
quem me dera ser tão derretido,
quão fosse da vida monte de amargo brio
ser tão dependente... o pendente Nilo. (Paciência).

O tédio me comendo solto, Final post series.




 Hoje passei a noite aceso, no mesmo pique dos postes velhos da cidade nova, que não mais funcionam. Fiquei esperando o sono chegar, a luz da light falhar, mas eram apenas o sódio, o lítio, o cádmio, tudo que faz a gente ficar alto, que me pegavam. Vislumbrei o umbral de fora, da encruzilhada, e não vi o diabo; tão pouco qualquer célebre cantor de blues pra ninar a ciranda da minha hipomania; poderíamos nos sentar na calçada anônima, mexer com as mulheres imaginárias, adoráveis fantasmas dos anos vinte, compor alguma coisa que fizesse sentido só para nós, pra nossa tristeza, que destruísse o abrigo de todo o resto de mundo pela justa franqueza de sentido; transformasse esse gueto num buraco negro, comendo toda a luz fraquinha dos domínios opressores imperiais...Mas só havia a do poste, só havia a minha, que me engolia...


A madrugada de Setembro de uma década tão reticente, tão silenciosa e tão sem utopias, tão sem luz e sem noite-calada, tão sem rock e sem blues, seguia me varando como um jogo de espadas que seguram o reator sentimental, como varetas que impedem a fissão tão natural das coisas, da explosão sem par das tendências às infinitivas palavras, aos infinitos pensamentos... Fiquei à espera daquilo que jamais tão remoto esteve, à espera do sol verdadeiro, o tal “sol-da-noite” , aquele que foi avistado certa vez pelos homens sem face, e aquele que por isso lhes custou a amarga visão do outro e de si mesmo; a percepção de que os outros sóis comuns dos dias eram apenas uma eterna e dramática reprise de uma estrela há muito tempo finada, persistente em brotar, como que um consolo à inocência detida, onde haveria de restar tão somente o imitar contuso do farol gigante, e a todos os dias brutos regar com plasma e sangue das guerras repetidas contra os rostos que não fossem os seus, o mais narcísicos utensílios... Antes, no início, no princípio, na luz que não era a de poste, era tudo fluido, fugaz, perpétuo; os sorrisos eram sem-dentemente telepáticos, e as penetrações octoplo-fractais e circulares; os hijos já nasciam grandes, também circulando e se sorrindo, plenitude das mentes. Eram todos profecia e profetas. Eram todos. Com o sol verdadeiro e bonito, se viram ricos, rico-pobres, sábios-pops, dentro e fora, seco e lubrificado, vivo e morto, os movimentos apressados do coito angustiante...viram dia e noite, vida e morte. Criaram então a anestesia e a poesia, de tão inutilmente sabidos que ficaram, só pra aliviar...

As horas vãs passam e eu não me alivio, não vejo o tão falado sol; o blues se vai daqui, naquelas levadas que são só tempo-contartempo, pêndulo eterno balangando tenso, como quando eu estou sozinho e impotente. Vai saindo Mercúrio lindo no horizonte, a primeira das muitas falsas estrelas, mas que também é falso planeta, uma alucinação catártico-coletiva. A luz do poste vai se minguando, do mesmo jeitinho da lua, a qual mesmo inteira é vazia quando cheia, uma miragem do nosso capricho. Aprecio com calma o gigante que vai saindo no leste. E os meus olhos, que vão e vem, pouco perplexos por não conseguirem ejacular uma só lágrima, no acasalamento do mundo com o seu fantasioso, se fecham e me cegam, com o tédio me comendo solto (solto, solto, solto).

16 de set de 2011

das idiotas que mais gosto.


Fui na feira ver um livro
não tinha livro,
não era ‘aquilo’, só tinha capa

Fui tomar água de coco
não tinha coco,
só tinha caixa

Fui tocar a flauta doce
não saiu doce,
não tinha a pauta

Fui na praça ver a massa
não tinha praça,
só tinha estátua

Entrei na tal rinha de foice
não tinha foice,
só tinha faca

Fui na padaria comprar leite
não tinha leite,
não há quem faça

Fui correr e fazer meu corpo
não tinha corpo,
o que era d'alma

Fui na copa pegar um copo
não tinha copo,
só tinha taça

Fui na taça botar vinho,
não tinha vinho,
não tinha graça

Fui na vida ver a vida:
só tinha ida,
a vida passa.

Cure

E como é de noite
de praxe eu chego
com meu sônico estômago ardendo
me reclamando, te re-clamando
E você me diz se quero chá,
se quero vida,
que me devo à morte. Tomar um calmante remédio.
Isso é conselho, isso eu renego;
Mas se é de noite, e eu não quero
e o meu peito arde
e você cateteriza,
e me sonda
por que é o porquê de ser dor,
donde é da minha causa o calor
que já vistes tão bem, e queima junto, 
junta-mente,
passamos a ter dois corpos curados
Imunes às bulas do mel chinês
das dipironas-salicílicas-inúteis. Somente? Sós-mentes se sentem. Somente.

12 de set de 2011

O Mais idiota entre os idiotas escritos, e que gosto.

O caldo verso




o cão achou belo o osso, e foi roê-lo
a moça achou dela o moço, e foi lambê-lo
o manguaça achou a cachaça, pensou que era aço, e foi bebê-la
o poeta achou na mente um livro, e foi escrevê-lo

O cão contou vantagem ao outro, que foi lambê-lo
A moça, encontrou a irmã, e foi descrevê-lo
O manguaça desmaiou na garrafa, que vai roê-lo
O poeta terminou o livro, achou dele o gosto, e foi lê-lo.

11 de set de 2011

E, no "Brasil Urgente" de hoje : Banned Sexy Jewish Commercial

O homem parou na porta do bar

O homem parou na porta do bar
Avenida São João
Futucou o nariz,
Coçou a barriga suja
ajeitou mais uma vez a camisa do Barcelona, doada,
do centenário.
Observou os faróis, que lhes faltavam as luzes.
Equilibrou os olhos, os óculos.
Não tomava cuidado com a pista,
tentava controlar o próprio tráfego.
Vivo, do outro lado, novamente safo.
Batuque ao fundo, gente que grita;
Está carnaval,
mas ele não samba, não sonha.
Agora em sua frente reluz uma caixa mágica,
Brilhante. A solução ao delírio.
Ele olha, não diz, não pensa;
Linda por demais! Cogita, apenas.
Mete a mão,
faz um pedido, e quando esfrega
ouve um grito.
Não é o gênio,
não é Deus, não é o alívio
e diz: “Vagabundo!”
É o dono do bar.
O homem corre da porta do bar
depois de enxoto, de toalhas ao lombo, como o pó
Avenida Ipyranga, das calçadas
ele se sacode.
Meia-noite e dez
último ônibus, ele acena, chove
Sozinho, pra ninguém,
o veículo passa
do jeito que se era aguardado.
Se lembra, portanto da caixa
que se tivesse, faria parar de tudo.
Haveria não só ônibus,
mas também melhor assento.
maior sorte, uma vida sem passagens tão caras.
Até uma tolha mais macia no ombro, pra secar
em progresso, num livro
ou num verso inteiro que lhe computasse a glória.
Dava até pra raciocinar em hidromassagem.
De novo fé na esquina,
pé na calçada, só nas pontinhas.
O sinal está sorrindo verde
e ela ainda o aguarda, intacta.
Ele se endireita,
injeta coragem,
passa um pouco do pó, gliter,
gotas do imaginário perfume;
Dança, sorri, seduz
como se houvesse conquista,
se não houvesse público.
Em plena uma e dez ele ainda se exercita
caladamente no ataque
às mãos armadas.
Recolhe do encanto, sem mais se interessar
de qualquer obscura repreensão, xingamento ou pedestre.
Somente o seu ronco lhe importa
curar a ânsia, dar sossego
àquela dança que o trava em sino,
badalo, missa perpétua na alma.
Ele se projeta, se debruça;
a camisa, a cada golpe mais turva, imensa surge.
O dono do bar ressurge
de vassoura seca, canelas e barriga grande.
E só o que diz é um “vá”,
sapateia de sílabas,
que antes das três finais, malditas, é golpeado.
Há uma fera na esquina!
O sangue corre,
a gente corre,
a garganta estica.
Sua boca, já sem o verbo
só com os rosnados, os molares ausentes
e a maldade recém-implantada
agora tem pouco tempo pra fazer futrico com seu grandioso desejo.
A língua toca no fundo do pote
A mão que o achara é aquela que vê a outra,
premeditada.
O rosado do soro sem nata,
com aqueles flocos marrons de areia,
pedrinhas, sujeira misturadas
se assemelham mais a bons insetos
que não necessitam fugir.
O farol funciona outra vez
encarnado para o seu estômago,
só para ele.
Agora se ouve a sirena
agora é vista a buzina
O tempo nem mais se conta. Está apanhado.
Barão do rio Branco,
distrito de polícias
depois da farra, da surra, do parto em público
o corretivo o espera, numa sala escura.
E enquanto urra, contra a arbitrária sentença
contra cacetes, futuros cárceres
surge uma punção ao terno
acidentada:
O homem sorri para caixa,
e antes de qualquer lágrima,
troca com ela um riso,
um beijo distante
Antes que suas mãos sejam de uma vez trancadas,
um provável pedido,
utopia,
migalhas ao verso.
Ela sinaliza de volta, como tudo o que se vale,
sempre em silêncio,
apenas ostentando na madrugada
contra as confusas luzes a marca
o emblema da cidade:
“Prefeitura de São Paulo,
coleta de resíduos orgânicos alimentares;
“Amando você”. Avenida qualquer.





Que não canso de ver, Parte III, Foo Fighters - Bridge Burning. Wasting Light Live from 606.

O Tédio me comendo solto V

 Já tinha me esquecido de como por fora um pouco todo o mal através da palavra escrita é benéfico. Normalmente eu vou acumulando, acumulando, feito nuvem, como um alguém sem vento e só quando não me aguento mais despejo. Muita gente julga que essa capacidade espongiforme, de ir só absorvendo a vida seja um dom, uma coisa preciosa; essa muita gente, ao observar a vida mansa que o meu olhar falsamente frio e calmo reluz, acaba concluindo que sou doce, brando, disperso. Outros ainda, mais corajosos, ensaiam que em mim enxergam uma certa perversidade, um poço de mania e ódio perto de transbordar.
Depois de muito ouvir a vida, vindo de fora, conjecturas tortas a repeito do que de verdade sou, decidi iniciar um exercício capaz de botar medo no Usain Bolt . O levantamento de peso, o boxe, a ginástica-mais-que-artística e profundamente obcecada , dos ritmos e dos balanços mórbidos de desavanço não possuem nada que seja próximo a esse flagelo imenso. Nenhum vitral de Igreja ortodoxa, nenhuma gotinha de sangue bem pintada de imagem barroca, derramadas em milagre, pagam o valor ou relatam com devida precisão o drama das vias do conhecimento voluntário da própria alma. Nesse movimento em direção ao escuro nada, que não promete os relatos da vida santa, muito menos uma redenção final, após dias de sangria e morte, eu tive de iniciar a primeira sessão de mergulho e realizar aquela bateria de condutas reprovadas pelo bom senso anterior e mórbido do cômodo-estado,o de ser muitos, o de ser o mim-do-menos-1.

7 de set de 2011

O Tédio me comendo solto de IV

          Mais uma vez naquele lugar que eu sei. A minha confusão é pouco profunda, se comparada aos piores dias pelos que passei. Hoje esfreguei tanto meus cabelos , lavando eles tanto no banho, e depois secando, e penteando, como se estivesse em procura de uma poeira que tenha sobrado; a impressão é de que alguma coisa suja tenha ficado nas minhas ideias.
          Depois que você esquenta, esfria, volta a esquentar com água, seca, faz um, dois, cinco penteado estranhos, você começa a notar que a sujeira não te larga; que aquela distração parca de se definir, de se enfeitar, é só pra ver se eu me esqueço um pouco da alma, que é tão dura de enxaguar, seja à mão, seja à máquina.


6 de set de 2011

Quem tem medo do lobo pop?

Vende-se: uma poema de quinze versos
de uma estrofe,de costas pra praia.
Ótima localização. Bem à sua página.
Verbos no infinitivo e ousadia singela
sem clichês de paixão ou piada
Marca meio pessoal,meio frígida, meio fingida;
algumas honrarias, muitas retóricas
manifestações de um jocoso bem esperado...
vazio.
Construído num instante de ócio;
inconveniente
por tratar de assuntos dos quais me esquivo;
Adormecido
por não provocar nada além de umas pequenas
nostalgias
que logo se curam com o flamejar de uma luz
monocromática
de um televisor.
High- HD-tech- fractal-8-D
Ligar para: (11) 7142-1588.
tratar com Coragem.

Tiroteio no Complexo do Alemão - 06/09/2011

4 de set de 2011

Dádiva




Me sinto tão inútil pelo fato do amor. Não que a sua existência me admire ou me espante sem motivo, mas sim porque a sua vizinhança comigo me entristece. É curioso perceber que sempre quando o vejo, em qualquer situação, parece que tenha visto qualquer coisa oposta a ele. Eles sorriem, eles te querem, eles torcem pelo seu sucesso, riem do que você diz, abrem os olhos quando você fala sério sobre a vida. Então eu abro a porta pensando que a paranoia vai passar. É o nosso aniversário. Não deveria ter deixado que eles entrassem assim, de tão ternos que dá até pra sentir o cheiro do mel quando me abraçam, ainda que eu não fosse um paranoico-sinestésico. Eles se vão no fim da noite e eu penso onde eu tenha errado tão pouco para ter merecido a tal ponto esse muito.
O amor me entristece, notei, não porque ele o seja, todo amoroso e rosa-em-cor , mas porque é tão bonito, tão piedoso, tão sem medo, sem coragem, sem qualidade boa ou má, que chega a ser aquele espaço imenso e vazio de substância, mas gigante o bastante para que caibam nele todas as essências, todas as vontades indistintas e pequenas, como a Terra no Sistema Solar, o Sistema na Via Láctea, ou da Via Láctea dançando como uma aspirina doida no íntimo do copo do corpo de deus, que chego a pensar não ser seu merecedor. Penso não ser bom a ponto de poder ser acolhido por esse vazio-cheio do amor, tão importante, tão universal, e que pode ser ejetado num sorriso, num bolo quente, numa lágrima. Eu durmo com trancas mais fortes nas minhas portas e janelas.

O Tédio me comendo solto III


Uma das coisas mais trágicas de que um dia se pode ser testemunha é o fim da vida de um homem. Nesse instante não há, nem pode haver, espaço para qualquer eufemismo: não é como a porra da luz que se apaga de repente, nem como a tradicional porra que se apaga, aos poucos e sem luz; ou menos como um pássaro que cessa seu voo sem deixar que ninguém veja. A morte é terrível, seca e triste. E vale à pena chorar? Não sei dizer se há lágrimas que possam ser dadas como perdidas em tempos de desespero. Porém, constato que o que se larga por entre os olhos não ajuda a trazer de volta quem à terra fria foi entregue, tampouco minimiza a saudade, esta sim, ainda mais dolorida na alma de quem permanece na porção superior do sepulcro.

3 de set de 2011

A bad song to a dead friend


Hoje o dia amanheceu, e você não viu
bem ou mal, escureceu, e você nem viu
bem relógio, o tempo foi, e você não viu.
Teve também muita tristeza,
sorrisos, lembrança;
coisas da saudade,
que nem a palavra resolve.
Dois vizinhos brigaram, tolos,
dizendo besteira,
por bobagem;
Um carro passou,
enguiçou,
empurraram, e fez barulho,
mobilizando a gente, que não pára.
Até mesmo quando chove, surpreende
a vazão explosiva dessas águas,
que nos reencarnam mais sujas pelas tardes.
Eu me debruço até com o barulho das xícaras,
com o doce contido nos fluídos quentes
sobre as mesas.
Ventou bastante pela noite,
que eu até me iludi, sem sonhos
pensando ser a sua presença;
Que nem durmo,
no escuro
só sentido, precipitados e abertos
os olhos do que vejo, as maldades;
pelo consolo
das janelas que não se fecham,
a saber que estás poupado,
preservado e eterno.
Mas se tudo amanhece
e sem ti nada se corre,
acorrentado,
eu permaneço que nem carro,
precisando de ajuda,
que não sossega e nem parte,
água que não mexe,
pra seguir.

Educação. Parte II


Se está disposto a saber
tudo o que se sente,
faça medicina
Ou corajoso a conhecer
tudo quanto faz pouco dos sentidos,
filosofia.
Jamais poesia.

2 de set de 2011

C- ticismo

C- ticismo-14



A salamandra, ou lagartixa de rico, que larga na sua parede, na sua rede,
a sua cauda
imagina que pariu, desolada, salvadora alma
O estreptococo que tenta avariar cada célula sadia,
driblar o estetoscópio e o raio gama
pensa ser só esse o seu negócio,
que suas vítimas nasceram apenas para esse propósito.
Meu cão, que balança o corpo e o rabo
pra dizer que me chama tanto, que me ama-em-intuito
pensa de mim que sou cachorro grande
de duas pernas, preto e magrelo.
O homem quando vê a vida
pensa estar nela tudo acertado e contido;
um universo que sempre gira sorrindo
mesmo quando coveiro tapa o buraco, sem os dentes.
Pode me cuspir o meu cético sentido, mas não pretendo ficar restrito
às mínimas condições gerais.
Não quero ser cachorro de mim mesmo,
bolôr de pão ou vida tranquila;
eu quero me devorar
e apodrecer pelas mãos da dúvida:
escapar pelos dutos da minha existência
para que se não houver amanhã
eu encontre , à luz do menor valor que fui,
o movimento acelerado dos raios de uma certeza atômica-menor,
que não pensa nada, 
e está no mundo. Um ponto-tudo.

Hippomania, por falta de uma lembrança de título.

 Hippomania



Jovianna saiu Às 23hs para comprar a manteiga que mais gosta, importada e sem cheiro. Se esqueceu de que o mercado fechava às dez e decidiu voltar. Se lembrou de que gostava da noite e decidiu ir à rua Amália. Não lembrou onde era a tal rua da infância; não lembrou do próprio nome. Tentou voltar pra casa da rua-sem-nome do bairro sem mundo, do mundo sem filhos, dos netos sem futuro. Ligou para casa discando o teclado do telefone celular mudo das solas das próprias papetes. Conectou o modem dos e-mails confusos com os barbantes do elástico da calcinha, da calçona , da blusa com cheiro de armário, com os fios dos próprios cabelos. Viveu sete anos na rua, a mesma rua Amália, que um dia encontrou por acidente, sem nunca saber que o tinha feito, a apenas nove quadras da sua casa. Seus três filhos saíram para procurá-la, mas se esqueceram que a mãe já estava fechada, e decidiram voltar pra casa. Se esqueceram de vez dela. Estão os três doentes.

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