27 de mai de 2012

1918- Sem sentido-

Sou uma pessoa só
e tento me convencer disso
c'uma só cabeça...
Já me disseram que não sou um cometa
e me apontaram ser comum à estrela.
Uso espelhos para fulgurar junto às imagens diurnas das saias dos gestos;
às vezes são diversas, tão brancas e secas
e sequer balançam, não venta; corpos sem voz
A cidade parece uma Oslo deitada
em neve salgada com esgoto
- uma Oslo com lixo nas ruas-
-agouro com sopro de festa-
e o trabalho com o suspiro que resta do seu corpo.
Carrossel, cavalinho, podem ser globo da morte
que brinca com os vãos mais gastos
sem o carinho
dos meus olhos caros que acompanham o movimento da rua.
Meia manga fiada à unha
meia manga de areia suja
e o azeite, que unge e suga
traz a sorte, um vermicida no prato
gregos jantando...
ameixas outras..
que boiam no vaso com licor
que a meiga menina em blusa,
quase lua
não deixa que eu me esqueça
que há outras nos beirando
a esquina
seminuas... da mesa:
Ameixas cruas;
dois copos de vinho à galeria
estações escuras
de binóculos vejo um homem fugir no infravermelho
com uma mochila às costas
e uma criança dentro dela, pequena:
Estão fugindo com Oslo rente as costas
Ele está levando o país entre as bostas...
s'embora
talvez para um esconderijo em Oslo mesma
de tantas pedras
sem pegada e rastro.
Raciocínio
nossos olhos estão cheios de ácido
que de amarelo ornam,
ornam, ornam...
e só (e eles nos convencem disso...)
tal que os dentes bebem
pelos buracos mal obturados dos cascos, ratazanas
e rosnam a vontade dura de serem unos também,
cada qual com um nome; homens nobres de cálcio; disso convencidos.
A penúltima estrela não se move
e os lábios os agarram sem juízo, com língua e tudo
pra conter... conter...
preciso me ser o me:
o não me perturbe, e o me desculpe...
As lamparinas de Estocolmo duram a até Agosto
que é quando começam a esquentar
de novo a cidade
e seu piso colorido de saias largas,
rodadas, até em baixo, pra combinar com o joelho cinza,
e minha doente luta
de fazer de tempos climas
ser no meio, com algum sentido
definida,
definitiva estação.
Tempestade.

20 de mai de 2012

consideração

Quem odeia só por convenções (morais) não poderá nunca dizer ter sido vítima de qualquer amor. Pior: vai comprar este, inacabado, em segredo, para sempre.



17 de mai de 2012

Anticoncepcional


Kaloo estava superexcitado agora, desde agora; não consegue dormir; há agitação motora e outras coisas. Se pudesse falar, não faria muito sentido, seria como um bêbado; Kaloo e eu estamos profundamente antissóbrios; e luta há para não voltar a se estar de pé, no meio desse frio; não há clima para que o mau parágrafo se encerre; ele está encravado e cheio de águas; não há sequer intenções. Tento, e agora me surgiu na cabezza um verso, em que a luz de uma lanterna e um canivete salvavam um compulsivo poeta de seu vício de fazer verso no meio da noite,um ponto no lugar qualquer da serra: um sonho, dentro de outro sonho, que era mais um sonho desses...avantes!
Continuo perplexo como não continua a ter nexo o fato plástico de o sonho e o sonho-do-sonho serem tão longe de mim agora. A mente de Kaloo não vence, tem fungos crescendo nela. Quero adormecer como página rasgada, sem me lembrar, depois de um dia em que começou com a frase errada no couro, arrancada com as mãos, de cima para baixo, sem velocidade, quando ainda sobram pelas bordas pedacinhos dela; quero deixar que o relax do mundo me carregue para o not, para o sem-perturbe universo das maravilhosas ondas dos meus olhos se movendo rápidos e baixos e eu sequer me saiba disso, com essa força que tem pra transitar tudo direto para a lata do esquecido quase-vivo; mas quero adormecer como a própria folha errada com pedaços de carne, de arte, barbeirando as suas esquinas. Arrasto Kaloo comigo. E o mundo nele sendo eu mesmo, história, e eu-página ávida, como o que parte sacanamente, desejando à vontade ficar para um retorno mais morno, pruma vida ruma e escura... Menos, menos... menos turva, Kaloo... Canivete e luz, muita luz sendo escrita, vivida.(Poesia?)



13 de mai de 2012

Tempo



Tempo

Precisamos muito de tempo
e o tempo é uma coisa que se cria
quando se quer amor ou briga.
Não tenhas pressa de ser perpétuo
platônico ou bonito,
como é a cara cheia de rinhas da lua apática que não gira,
nem como a brisa que deveras espera, e insiste, e não bate
como deveria, faz a curva e não te sacode...
O tempo que se quer vai longe
comprido demais pra ser teu amo,
como uma marca da mosca laranja que voa, sem paralelo no seu quarto
e mal se veem dela as asas;
está lá, quando o quase
é o não pegarmos
saindo pelo vão de mão exausta, em oito, imitando o relógio,
cabreira, cismada por não ter se chegado
entre os dedos
tanto tateio
para nada
esmagado-tempo.

12 de mai de 2012

D.O.(R)


DOR

Acontece quando estou sentado e me levanto de repente
Ou quando você vai-se embora, sem aviso
ou daquelas horas que te falo destemido
e mesmo ouço alto, em watts, nos meus fones de ouvido.
Decibéis perturbam
dolores desgraçam. E tu me rói e range, vai lá, adiante.
Eu não posso me mover, que tudo trava;
quando corro ao acaso, direto pro firme, meus seis joelhos
para entenderem tudo o que se passa
até se envergam
e de sentir o agouro, os meus cabelos
os segredos pretos,
se roem, um a um, rum à brasa
errados, com o ponto e o vento em vírgula manca
cabezza avulsa,
quase jorrando escura...
É o medo.

E se vai, inferna e bebe
quebra gravetos e inflama
a casta amarilla garganta
otite velha e cama...
Pedras não cantam
merdas não ouvem
e ficamos assim, descrentes
a menos que sobre o lodo barbituro no cofre
e moedas comprem à flor o truque de se doer tão rouca
como um olhão-pires no dengo da prosa espessa,
que se arranca parte
e se joga sem um coice
à morte.

Eu não quero que se sentes mais ao meu lado, a contraprova.
não me cai solto da rua angústia
do vice e torto
o qualquer abraço...
Em verdade prefiro que volte
e queira levantar primeiro;
prepare e ajeite o que vem:
tenda-dor
ao chão,
a todo custo, inevitável;
canção como fole,
q'outrora fogos no meu peito
chiando agora, enferrujado.
Dor por todo o teu corpo.


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