30 de mar de 2013

Verdades

"Creio que a internet modificará os ditames da formulação textual. A Concisão extinguirá, com uma velocidade incrível, a prolixidade quase ingênua d'outros anos. A luz negativa deste espectro há de  ser dada ao surgimento das infâmias e das calúnias, em razão da disseminação dos textos apócrifos, ofensivos e até, com muita ousadia vos digo, falsificados."

Rui Barbosa, Discurso, 1904*.



*Este é um texto de ficção, de caráter humorístico e metalinguístico, que em nenunhum momento faz uso de quaisquer referências reais que tenham sido, em qualquer momento, escritas ou mencionadas publicamente pelo autor Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923), citado acima.



28 de mar de 2013

Tudo Para o Mundo




TPM

        Bruta
        ruta
    e sistemática :
    (bem resolvida,
    didática);


                   até a primeira chuva,
                              e vai chover-se também:

                                   tod'a  muda

                                      a   nada     escondida

                                     e trágica;

                       
                   (ir) De morena caturra,

                                                                         a doce d'água.



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27 de mar de 2013




"Esperança é 
quando a dor presente 
nos faz tentar outra vez."

                                                         Chico Science.

20 de mar de 2013



Tenho para mim que as pessoas inteligentes sejam as mais caladas,

mais caladas que os causadores de velório:

plantas;
são assim porque são

festentas de si

e ciumentas de nada;

Amam tanto ao mundo,
sem mordidas,

pois não querem dizer a ele como
portar-se

nem o que deva ser, sequer um minuto,

(a)caso o mundo
consumido,

se erre
naquilo que o ser só já sabe ter.


15 de mar de 2013

Habemus papam


Na Manguetown.



Foto by: Adriana Zehbrauskas, 1995.
http://entretenimento.uol.com.br/famosos/chico-science/ 

 

9 de mar de 2013

Complexo Vira-latas


Esse olhar do cachorro é um emblema de muita coisa, não necessariamente minha, certamente, e agradeço por não ser assim, comigo a tortura que abala vidas outras por aí.

 Pode parecer cafona considerar, mas nessa imagem tem a tentativa amiga e triste de um ser que tenta optar pela sua dignidade, apesar de tudo... Há de se lembrar de que nós, criadores da dignidade, detentores desse monopólio moral (da palavra, do gesto e do seu cínico não-cumprimento) não resistimos ao corrupto no primeiro sinal de indigno, do desleal; ao surto que publicamente comprovem ser verdadeiras todas os chicoteamentos, todas acusações -verdadeiras ou falsas, isso mal importa-  que nos foram dadas.

 Cada qual com seu nível de tolerância ao frio, ao mofo e ao relento.... Até que se explode, após uma grande preguiça pelo intacto, o animal. Passamos a realizar uma "vitimização ativa de tudo", em que, se não somos boas peças, como diz a gíria, passamos a agir do pior modo possível para justificar a agressão sofrida e o mau nome tanto dado; assim é que se criam círculos perpétuos punitivos e de auto-puinção.  O marginal assume a margem que colocam sobre o seu couro pra tentar  se situar nesse mundo dos papéis: eu roubo, tu sofres, eu minto, e nós condenamos. 

Vós, que sois deus, é o único que pode ser unidade e fragmentação ao mesmo tempo, parte e todo, e ir brincando de sofrer, sendo eterno, imutável das coisas e das situações, incluíndo a de si mesmo...  O restante sofre, e essas idéias vão doninando nosso comportamento... 

E nascem os redutos das pessoas ditas impossíveis, esquecidas, as prisões, as casas de abrigo, as internações forçadas; a vítima, muitas vezes, é oriunda (palavra chique , pero no mucho!) do papel que assume, uma contradição sem igual, da menina que repete o estigma da família, da criança avoada que vai avoar para o resto da vida, já que o único trato dado desde sempre foi esse.

A vitimização ativa é também uma forma de acalento. Afinal, o mais interessante é pertencer a uma família do que não pertencer a família alguma. Quem não aceita a tortura de se tornar o quadro da que vai engravidar aos quinze, pois o "sangue a chama", nem do sem-futuro, cuja única sina será o crime, tem que fazer um caminho obscuro de solidão e desamparo sem igual, sem referências, sem o costume de se ouvir que presta pra alguma coisa nesta vida .

E se essas pessoas, anormais por essência e por julgamento alheio, encontrassem o segredo permanente, responsável pelas suas vidas; o segredo da palavra da auto-determinação? (momento auto-ajuda...zzz ). E se mantivessem no olhar a contrária sina e fossem  felinos canis, calmos festivais, palhaços sisudos, artistas industriais, músicos feios e surdos, poetas, pedreiros de fornalha de comida ligth, coisa sutil qualquer?

 Mas a dualidade vítima-algoz, dualidade de poder, dá voz só ao que fere, fazendo de nós cães dependentes de um afeto que machuca. Impede malabares. Da dor somos nossos impróprios sútidos.Somadores crônicos do Onírico ódio do outro por nós, e o de nós mesmos pelo nosso, complementar defeito auto-imune, arrasador. (momento poesia, para compensar...)

E, assim mesmo, mordemos mesmo que faltem os motivos, que podem não ser expressos de maneira clara. Uma resposta simples e possível de se pôr nesse mundo de oposições. E, pior, só podemos reconhecer o erro caso não erremos, ou seja, caso consigamos abrir caminho por entre o fogo dos maus-tratos e do descaso do meio social em que vivemos e atinjamos o sol com as próprias marcas. Um lugarejo novo para o amor, longe daquele de acatar a mordida que os imundos nos dão. Não, não seremos rábica, mas coração. (momento romance, pra desconpensar a poezzzia... )

Mas, voltando ao dog triste da foto, esse cão que nunca pôde pensar nessas coisas todas sem sentido de que falo, de voar para longe e existir deveras, nem se ressentir contra a estupidez e, estupidamente, abraçá-la, como fazemos, poderia ele ter morrido, considero, pelas mãos de seu instinto, apertando as mãos do homem estúpido que o humilhara e mordiscando as duas, como navalha, despertando nele a ira que faltava para atestar o pretexto e assinar o fim do seu ciclo. Mas recusou-se, e muito. E esse é o seu vôo, é o que a sua espécie permite de resignação afetuosa, balançar eventual de calda, coceira, medo ao atravessar as ruas... Uma vítima digna.

 Tomara que ele tenha conseguido superar esse trauma de gente. E devote ao tudo esse olhar imune de quem vai querer viver para sempre, apesar desse tudo que a ele fizeram, e comova mais.


 Imagem Tirada do:

8 de mar de 2013

Nave Rigorosa

Quando meu inglês era assim. E era bom... ( Link para : Charlie Brown jr. playin' Killin' the name, Rage Against the Machine cover)

Sinto que preciso comentar algumas coisas sobre onde diabos estavam as pessoas que supostamente amavam Alexandre, o magno, primeiro homem a receber as tábuas divinas do skate no Brasil, quando ainda isso não era coisa de gente sã. Na adolescência, tive oportunidade de vê-lo em ação plena, no palco e, como bom questionador que sempre fui, podia imaginar a dor que pode ser não ser visto como humano, como amável por alguém, ainda que despertasse no povo cócegas e alguns orgasmos mínimos, vindos de alguma crença no caráter sobrenatural das relações.

A mim, soava como porta de saída para as boas e canalhas veias da minha personalidade, que se batizou de Shankar, era o tipo de som descompromissado com tudo, absolutamente tudo, coisa de jovenzinho... 

Mas, voltando a essa história de ser visto como um objeto dançante num palco, e nunca como um homem, que por vezes chora escondido e se faz de vítima, acredito que entendo perfeitamente a loucura que toma quem bebe do cálice sagrado do show bizz. O agravo, porém é que vivemos essa chaga todos os dias, nas relações. Creio que muitos me veem e me viram como mero objeto de um show, sem a menor preocupação com o que eu sinto ou penso.

Uma residente em psiquiatria do Hospital Universitário desta cidade uma vez me disse que eu era do contra, e ia ali só para fazer birra (esse "fazer birra" é por minha conta), e que tínhamos "objetivos diferentes". Ainda bem que ela já se foi da minha vida, foi apenas mais um show, de muitos, de descrença que depositam na minha humanidade.... Vamos para a próxima faixa...

E ninguém sabe o que acontece... é realmente impressionante. Perdi meu maior amigo nos últimos anos por conta de um suicídio. A família, aparentemente, o pressionava em muitos aspectos, ele se sentia fora do real. Não consegui salvá-lo. Talvez eu, tão prepotente senhor dos sentidos, não tenha o visto com a humanidade  que necessitava para sair daquela maresia mortal. Eu não vi...

(Chorus)

...e, além de tudo, tive de conviver com esse peso da morte jovem por meio das próprias mãos, num país careta, religioso e brutalmente educado com chibata e canhão, por séculos. Falamos Português, e só isso, e às vezes nem isso, em especial quando o assunto é morte ou suicídio. O sofrimento aqui é proibido.

Estamos em guerra sempre. E a minha é para provar que sou gente, e que não penso só em guerra. Olha que contradição! Muita gente vive dizendo besteirinhas ao meu respeito. Por conta disso, tenho muitos ex-amigos, que pensei que eram pessoas que me compreenderiam "em back stage", que entenderiam como eu era capaz de me sentir triste, como todo humano, que precisa de uma coisa chamada abraço, ser seguro e não ser solto mais, saca? mas muita gente só quer dessa vida o palco.

(Carteado e algumas manobrinhas) 

Uma vez, fui chamado de psicopata por um colega de serviço. tinha dezessete anos na época. O soldo bancava o cursinho, que me bancaria para o palco em que estou hoje. O que eu tinha que fazer? dizer que a companhia de Internet era boa e conversar o povo a não cancelar o serviço...Mais um palco, em que eu mandava muito bem. O tal colega só freou a "brincadeira" quando ameacei ele (de brincadeira) no banheiro da firma. O curioso é que tive de dar a ele o que ele pedia para que assim parasse...

E o mais bizarro é que ele, no fundo, me via como um pisco. Isso foi o mais impressionante... mais um palco.


(Nadando com os Tubarões)

Boiando nessa piscina de tédio, comecei a conhecer a dor de maneira mais viva. Aquela dor do operador metroviário no final da tarde, rezando para que ninguém caia da plataforma lotada na Sé, a verdadeira central do Brasil... nesse caso ele, operador de trem, é o espectador. E tem dias que a obra é a mesma. Não vê mais humanos, só um tapete...Isso é bastante cruel, porque só vai se lembrar do que é humano quando aquele otário de sempre escorregar na frente da composição. Na verdade até parece o mesmo, que ressuscita só pra banhar a memória da máquina com coisa vermelha e sã, mas, de alguma forma, colabora...

Mas, quando te pressionam tanto, e não há  como (nem porque) fugir, você tem a opção de escolher uma distorção no seu Wah-Wah e brincar com a estupidez dos que te acham uma estrela, dos que só te querem para a festa, para o sexo, para o melhor; e AI de ti se fizer cara feia...


Você dá o seu show, e então aparece uma fã. Ela não sabe o quanto você suou e tomou cuspe na cara, quando tava no underground, nem que você sofre o diabo por dentro, e como ela sofre para pagar contas e não ter nada em troca.

E então você tá numa semana terrível, cheio de substancia ruim no couro, chorando por dentro, mal conseguindo levantar-se. recusa a PORRA DO PRESENTE. (texto piorando em nível). Por que? PORQUE VOCÊ NÃO ESTÁ LEGAL. Não quer aparecer na foto todo caído.

E a tal fã, depois de você ter saído pela porta dos fundos do aeroporto, reclama na rede social:

da próxima vez, se alguém quiser te entregar algo, aceite. como for. vc nao sabe o que essa pessoa fez pra conseguir esse "algo". vc nao sabe quanto tempo a pessoa perdeu pra conseguir esse "algo". veja os dois lados.

qq desconforto a ser gerado em vc, vai passar. o que nao pode passar é a ideia de que: nao, nunca mais negue a possibilidade de alguem te dar algo.


Não, não vai passar. Ser IGnorado como ser humano, como você fosse apenas um Orixá pra quem se deixa uma oferenda é doloroso. As pessoas só me magoam uma vez, e só uma. Eu estava doente naquela semana, fã anônima, e não queria sua companhia; queira a de qualquer um que me dissesse qualquer coisa simplória. Sim, é um dramalhão. O fã não reconhece esforço no trampo do artista.

Na cabecinha da fã, só ela é humana. Mal passava na cabeça dela que naquela semana pude crer que morreria, devido a minha saúde. Mas, para gente assim, somos só objetos de consumo, imortais, imorais e prósperos sempre. Você os dá a arte, mas quando quer ser tratado como gente, cospem em você, e você volta para o seu quarto, humano e aflito, como gente amarga e não entendida.


(Quebra-mar)

O curioso é que, produzir mais arte, ser diferente, intenso, repele a humanidade e o amor que você gostaria de ter por parte de seus admiradores. E a solidão  parece ser só a chave. Você tenta procurar a porta, mas o sentido de tudo, mesmo deste texto simples e odioso, se perde.

 Querem o disco punk de Shankar, sempre quiseram. E, portanto a vontade sempre foi feita. Mas nunca recebi de volta o que proporcionei aos outros. E não é de injustiça de que falo, já que injustiça maior seria não ter recurso intelectual para escrever isso, essa coisa "dark e de guerra", não é fã-farrona anônima?

(Do surf)

E há aquela hora de esfriar o sangue, ficar na brisa quando não se tem tesão pelo seu trabalho acústico e conceitual, mas só pela furadeira em forma de guitarra. É triste. O artista comido pela própria arte. Pode usufruir dos pulos e sentir o cheiro de suor num festival, mas nunca saberá o nome daquela menina, daquele menino, que depois de boas doses de ecstasy ou pinga, retornam para casa para amar o Rigor do cinta, dos desenhos perfeitos cabelo curto... trajes militares, saudade, cinema, começão de doces e cacas, casamento, escritura. E a arte vai lentamente para o museu, para o cemitério, ou para o delírio absurdo... o artista virou caricatura do que ele mesmo encomendou, largado numa jaula....

Peraí! Esse texto é sobre a morte do Chorão, ou sobre mim, afinal?

É uma mistura, perigosa, das duas coisas; sobre inveja e abandono, que só um fato magnânimo externo, e uma reflexão interna são capazes de fazer com que comparemos o nosso descaso diário numa vibe absurda. Mas, perdão, é o jeito dark do artista. Talvez esteja quente e seja sol demais para quebrar a casa. . Só Uma boa viagem basta.


 (E meu inglês não lá essas coisas, ainda.)










6 de mar de 2013

Florbela II

Florbela,
dá me um maço de cigarro,
e acenda de longe sua mentira imunda.
Fique em silêncio quando te peço
e não volte a gritar caso eu irrite:
os teus cabelos não estão mais coloridos
o efeito do lírio já passou
o que não passa é esse teu jeito abusivo
corpo de lareira
poesia turra.
Para o quê reclamas,
se já desististe do divino?
E para qual me chamas
se o meu lixo te pouco adula?
Florbela,
toma teu rumo e saia de mim,
mulher de calças
antes que eu te invista
como se te fossem duras as minhas
nuas Mágoas.

2 de mar de 2013

V. A .R. I. G

Varig


Amiga minha,
que não é nada minha
e tudo isso:
irmã, pai e mulher
Gostaria de ter me casado contigo
com toda adoleta amena
seria mais fácil te largar com filhos
do que amigo, te namorar
e me casar todo dia
perdido,
não ser pensado, em me ocupar
Amiga minha,
não é culpa tua
pois sequer sabe o nome da rua
em que passou um avião
escrito o que não estás aqui pra ver:
nada
e isso tudo.
Quem caiu foi tu,
dessa companhia tão aérea
e tão amiga...
que não é nada minha.

"A juventude dá angústia porque é transitória; Não vê os velhos? Os velhos morrem velhos, ou de velhos, e pronto. Não há alteração eficaz que conduza pro fim; morrer é uma sublimação de um estado a outro. Velhos querem, às vezes, a mesma energia da juventude, o mesmo repertório de memórias, ou a companhia de quem agora os falta, mas nunca querem a angústia e a incerteza dos vinte, vinte e cinco... Velhos desejam o rejuvenescimento, mas jamais a juventude."

27 de Setembro de 2001. (!)

Ponderação estranha e curta do Velho Alexandre Tágoras, encontrada numa anotação velha.

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