2 de jun de 2018

Metrópole


Metrópole


Mínima de nove
e máxima de quatro vezes dez
noite em clima e asfalto cru de novo
buzinas atormentadas porque
a miúda cancelou o encontro
ao saber da vinda da tempestade
dentro da cara e das bolsas
dos olhos
seis da noite
no vão do museu
qualquer coisa menos arte
prédios simpáticos
pedras homeopatas
em cabeças psicóticas
Terra explicita a reproduzir sem monumento
de não se deixar ereto
Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos 
Um campo de concentração
a assombrar quase ninguém
 integra à imagem as ex-gentes que estorvam
Carlos Caldeira Filho um pirão
de motos e córregos  
sombreada por serpentezinha de aço sobre as mentes
não é a via Cuatro
escadaria fresca de quem a mantem discreta
Não sairá nos jornais eletrônicos
Mesmo quando chova e caiba refrão
‘Itaim, longe de mim! ’
Debutante margem de Brookfield assombrados
Vales da cheia de vinte e nove
Casa do norte do Pirajuçara O Sabor
um piscinão no antigo campo da Ponte
Trem atômico
o dominante nó de dar nas palavras avoadas
Verso 
Do insano Grajaú
A única Coisa existente.  

18 de abr de 2018

Verdades-nenhuma


Verdades-nenhuma


A poesia romântica é
Geralmente
Ausente em quem não
Viveu

Nem toda canção dos anos
Setenta é um
Bonito sample
De rap

Mesmo sem o muro o
Leste do mundo
Continua-nos
Um privê incógnito

Ainda que o
Silêncio quebre não
Equivale
Ao quente dum pensamento honesto

Não necessita
Muito otário para crer, sendo
O mundo como um grande
Círculo de bits

Bermudas podem ser
Usadas no escritório
Sem dar curto
À desconfiança

Erguer a cabeça crespa
Avessa ao medo
Na blitzkrieg da rua Joaquim Palhares
Pouco custará: cabeça e liberdade

Todo o vermelho
Rougido ao meu pescoço
Aflito é somente em peste
A obra de um mosquito



16 de abr de 2018

Timidez





Timidez


Eu sei o que falar
Mas isso assustaria
Ao mar
Eu sei o que dizer
Só não sei o que é respirar
Ao receber
Bom dia
Boa tarde
Tu fazes parte
você é linda
São quantas doses?
É pra presente?
É pra você?
Eu sei me vestir
Só me falta saber
Costurar a boa tira
Sem parecer a nua
Luz do dia

Pés pesados
Descalços nunca porei à janela
Os dorsos mais vivos de um mundo
São meus de orgulho e vaidade
Até a idade
Pensam que pensam
Dando um nó no tempo
Já pensarei:
E direi não
Com a força de um coelho acuado.


21 de jan de 2018

Domingão







Domingão



É dia de acordar
Com a cara dentro do lençol
É dia de lavar o carro e
Deixar o futebol
Bater na laje
Das antenas
O sol
Vencer
O sal do suor
E o churrasco
Maionese e banana na mesa
Bananas conversando besteiras
Almoço, as panelas cheias

É dia de visitar o seu namorado
E pior,
Os pais do seu namorado!
Os domingos dos amantes são os piores
O tempo não corre depois das três
O sono e o mormaço
Absurdo
Não deixam soprar o vento falado
Laranjas e azia
Profilatico
Antiacido na receita
Arruma-se a mochila com dor...
Ruas congestionadas de eventos
E de ar parado
Patins, corre corre, moças sem maquiagem
Tardezinha
Vem sussurrando
Por lembranças da rotina
Nos passos devagares das vizinhas
Visitas indo-se embora
Essas crianças são sacanas demais
A quererem mudar o mundo...
Triturando playgrounds
E pregando peças
No meu tempo a gente
Era diferente
Nós só queríamos devorar o
Domingo com guaraná
Redundantes e sem crime
Pescaria no sofás
Olhos de bebedeira do sábado
À noite
Se parece um chá num copo
Vai escurecendo e amargando
No fundo enjoando de doce melado
Estica e puxa o gosto
Fogos
Algum time foi campeão
Dessa vez foi sofrido dizem
Que de quatro
A três
Nos pênaltis
Com dois a menos. Vai ter placa e facada.
Não tem mais refrigerante ou se tem
Não tem gás
É nós também não ...
Não temos mais saco pra pizza
Tínhamos engolido muitas antes
Hoje, nenhuma
Deve ser este dia uma herança
Do paraíso onde as primeiras cores
Impressionavam por semelhantes olhos
E se pareciam com as únicas coisas feitas
Antes do eterno e nono dia


13 de jan de 2018

Oculto




Oculto


Ainda que
não crendo em nada
E ser
oculto na causa
aplaudo o sol e esquento a cara

Ainda que
Não crendo em nada
três
golpes na madeira
e ver o que se salva

Ainda que
não crendo em nada
o dia vem
e fica imoral
e em perigo 
sem um vá com Deus e amém

Ainda que
Não crendo em quase nada
ao ver
buzuntão e honestidade
Anima a mina
a alma, misericórdia

Ainda que
não crendo em nada e besta
Abestolutimamente
uma prece
raia ao meditar
na esperança
o meu único fio

Ainda que
Não crendo em nada
Minhas mãos são casca
Figa e fogo
mentira e tentação atrapam

Ainda que
não crendo em nada
ardem e andam
Invídia e calúnia na rua
de mãos atadas
Defendo-me
Deus me defenda com
sal grosso às costas 

Ainda que
Não crendo em nada
Sou 
Cético, seco
ao que diz o humano
não se escreve em valsa de fada 
laço
portanto
o meu pulso
Conceição de fitas

Ainda que
não crendo em nada
rogo pelos motores
do avião
e amores girarem bem qual
as sete ondas me fazem

Ainda que
não crendo em nada
A paixão comove e bebo nela
as lágrimas sem tina
Um gole
ao santo e à vida
e NADA para o rei 




14 de nov de 2017

Indigno dia



Indigno dia

A essa hora
jaz em mim a pressa e a dor é a única acordada
porque mesmo a tristeza já não se aguentara;
esmoreceu, antes da meia-noite, a fadiga sem a calma.
Debaixo de um ombro o pudor se aqueceu com a febre
do pensamento que se foi justo ao fim da tarde
de tanto aguardar a decência e o fim
Aquela, que sequer amanheceu !

(mas este, sim.)





Juliano Salustiano

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