22 de set de 2012

Uma citação velha

"Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado."


21 de set de 2012

De Nata

De Nata, versão I

Queria ser menos intenso
para com brasa rosada,
frio veneno
gostar de ti menos
e sofrer sereno;

Morno queria de ser, quiçá o menos propenso
a esse escuro algoz do tempo
quem de mim bem pouco faz
do mais quando me penso e tenho.... em desordem,
ao pé da tempestade
figura só trovoada
a meditar nas frutas madrugadas
toda e qualquer noda do sumo de nenhuma doçura
garoas,
garoas,
garoas amargas
loucura de pequeno;
ou ainda para construir imenso dia com alma
de lamas,
nos jarros para os claros de um pires de sangue,
a laranja alvorada
e a vento de de manga larga
prosseguir
me passar
por mortes passadas,
e alto estar com o mundo
tão igual...
a um dos pássaros de vida breve
frágeis e excelentes
em sonar de tanto dizer que “canto,
cantei
e cantarei sempre, que cantar é urge”
e percorre pelo céu feito, por mim às pancadas,
ou com um pouco de remédio
ainda que céu, gosto de nata
e orna bono a mentira com brio
sem erro ou bronco,
o louco,
como formigas, comido por elas,
sem o receio frio, da ordem exata.

 
 De Nata, versão II


Queria ser menos intenso
para com brasa rosa
frio veneno
me gastar de ti menos
e sofrer sereno
Morno queria ser tenro propenso
a esse escuro algoz do tempo
quem de mim bem pouco faz quando
me penso e tenho;
ao pé da tempestade figura só a trovoada
agora meditando nas frutas madrugas
toda e qualquer noda do sumo de nenhuma doçura
garoas, garoas, garoas amargas
loucura de pequeno...
ou ainda ousado de construir imenso dia
nos claros de um jarro de sangue, entornar laranja alvorada
a ventos de mangas largas
e me passar puro-sangue
no páreo
por mortes passadas
e saltando com elegância
a pássaros de vida breve,
que se espantam com o manhoso do céu
e se pendem em má corda para dizer
“que cantamos
cantávamos
e cantaremos sempre
que cantar é urge irônico”
e mesmo sem penas em mim, cantarolar...
E percorrem pelo meu céu refeito
por mim às doídas pancadas
um pouco de remédio, um gosto de nata,
como formigas, comido por elas, 
o sem festeio
da ordem exata.

5 de set de 2012

Palavra covarde

A libido dos covardes é a distância que mantêm do sangue . É a sanha deles. Gozam o tempo infinito que a juventude e força que o soldado vende sem paga, às vezes de sempre, consigo mesmo em corpo e sacrifício sem saber o que faz. Mata, morre, mata. Perdoai, perdoai. É o que a toga sempre faz com os comandantes. Gostam, juiz e justo, de ver a vida saind'assim, em ordem, do gradio dela. Há paixão demais nisso, pois sabemos e podemos ver de ponta a ponta a via do sofrimento, nesse paraíso televisivo em que esteve tal corpo, comovido com precisão, de tempos em tempos saborear a transconsubstanciação, assim, das mágoas em vinho tinto, e a resolução de toda desavença com síncopes maiores de gestos, torções de palavras, atos, e mais que isso, de intenções. A gente sai cabisbaixa, abalada, toda à balas, tonta, sabendo que no ano que vêm haverá mais cena bárbara. Barra-Al- baás se mistura entre os os crentes e mulheres são apresentadas a ele, ele sempre salva a si mesmo; os soldados voltam para casa... Nada disso faz sentido, nada...é um cassino de sortes, em que os tiros sempre saem para as mesmas peças; parece um grande campeonato de conjunções carnais, caótico e avulso. Mas o fluxo é periódico, e não se envelhece ou morre por completo para fazer parar ele, o nosso objeto sádico. E como o tesão da burocracia é a fila, e sou prático no silêncio que sou quando estou nela, a receber o corpo santo, prefere o que foi escrito, com vergonha, terminar num só parágrafo, antes que retorne o trágico do que já sabemos. Promete não abrir mais o nosso livro sagrado, ser de longe palavra covarde também, só ter começo, e não fim. Amém.


3 de set de 2012

Céu


Céu.

Apreciei o céu em São Paulo,
e enxerguei os arranha-céus em mim,
a meu olhar,
na melhor frase que um ônibus percorre
e eu já me fixo, na janela... e vejo
eu quero os céus daqui:
Vou vendo mais céus à medida que ando,
o céu parabólico dos modernos,
o céu paranoico, condomínios farpados
e o céu helicóptero, rápido e rico:
você mal vê quem está por cima;
e o céu farol de cada esquina, Vermelha Doutor Arnaldo...
...Céu Casagrande das mansões
ou médio, meio sério, dos sobrados da Lapa.
Céu de avenida cinza,
que diz que chove em mim e só garoa
de São Jorge deitado sem lua....
Às dezenove, quando se volta da lida
céu de árvore e mato é mentira! (Ainda estamos na Paulista)
mas desejo...
céuzinho brilhante
da loja de carros
céu, de centro a perifa, debruça e conecta
de fios
os meios-fios dos pássaros;
mas em São Paulo os chamamos  'guia';
procuro no céu a palavra,
uma estrella ninha...
e não acho.
A constelação de anúncios vai persistindo como a noite cai.
Letreiros novos , mas leio mal em português, farto de opiniões:
só o meu olho fala a mim mesmo
tamanho céu que me falta –
(e vai chegando perto de casa...
...céu particulo
particular,
céu imenso, céu de Chácara;
das embuias, do M' Boi, das aldeias
céu das casas),
que mesmo com tanto
Torres de força e fogos na Quarta
carece tu,
carece mágica.


"e ganhar a vida com cara para cima é a saída”. (William Ross)

A um Amigo


Zaratustra,

Parece aqueles carimbos sem data, que vão repetindo todos, dizer isso. Mas saiba, amigo, que nesses exatos três anos sem você, ou melhor, nesses dias em que eu "perdi o seu endereço", e por isso aqui escrevo, eu estive melhor do que nunca, podendo estar melhor que o sempre, no caso da sua presença. Eu falo em poesia porque você sempre soube que esse foi meu ângulo pra dizer , e os seus óculos, aqueles seus, sempre viram isso, e muito bem....E ainda que fazer isso falado fosse tempo e possível de corpo, você também o sabe como menor seria, porque te herdo, e me herdou também – sim, eu não poderia deixar de te dar um trocadilho sujo e barato da cacofonia...
Também não poderia deixar de dizer que não fui mais o mesmo; sinto saudades e sentirei sempre, mas não me dói como doeu de início. Sinto que, do jeito que levou embora parte minha, ficou em mim parte alguma tua, que não sei qual foi. Certo que foi uma do teu ego Zaratustra, que conduziram ao brio os meus , Shankar, Sycli e Demian, num grande encontro entre almas. Saudades minhas. 

2 de set de 2012

Mil desculpas


Mil desculpas,

ao pedreiro José Inácio, ou Inácio José, ou Josenildo que re-trabalhou com a imensa raiva sobre a calçada que acidentalmente desfiz por não lhe ver o cimento novo em 30 de Agosto desse ano. Na verdade, não sei seu nome, caro trabalhador, contrário máximo de mim, sabendo que sou, além de vagaldo Iulius, clarividentemente preconceituoso. Poderia ser você não de qualquer nome popular como desses que disse, ou pensei, pouco importa; podia ser grande e forte como Marco, Vitor Orador, Caio, Mario, Murilo... Ou Carlos, que é simples, mas reificante...Carlos Augusto! Uma boa entrada para tribunais e em voz de mãe. Acho, porém, que é mais digno chamar-te de Cícero, que é nome forte, que a esteira rápida dos dias fez passar ao econômico Ciço, e que os grandes, donos da cidade e do nome usaram para des-significá-lo de fazedor sem alma, de trena, desempenadeira e calçada.

Era de Bordel a obra feita no final da tarde. Não subiriam nunca por carros e a gente que entrasse, muito moral e ordeira pros festejos, faria na sola sem chinelo pra ter menos barulho que o apito dos guardas, ou as buzinas das motos da Cardeal. Lá dentro as borboletas não voavam e tinha muito cheiro de mofo. Não detinha essa mecânica o mundo escuro de definir tudo na base do urro o inferno pequeno; se contentava em ser a casa um sujo externo ao paraíso de dióxidos de fora: Ônibus que antes desciam no embalo agora estacionavam e só faziam correr o gás e a fumaça na frente do estabelecimento e dos poucos outros dali abertos. O Bordel era um exaustor quebrado. Eu particularmente nunca havia visto alma bêbada entrar lá; confesso que já gastei alguns minutos da minha caminhada noturna sempre olhando para os que nunca entraram, os que sequer passavam pela calçada, velhos, mulheres, como que com medo do buraco negro daquele puteiro, e juro eu, que nunca estive em tal miragem, na porta ou qualquer das redondezas...

Mas o pedreiro Ciço, voltando a ele, teve um dia duríssimo, como aquele em que saiu pro mundo e foi dado ao sujeito o suspeito nome. Observou o clarão da tarde seca de Agosto e fez a massa lentamente, carregou a água como a que tirou do rosto, colocou os níveis. Pedra, areia, deslanchou tudo e foi acertando no mesmo ponto que se embalava sua imaginação a percorrer os caça-níqueis perdidos entre cortinas e caibros, de quanto iria mentir para os amigos sobre como trabalhou no maior zonão da zona oeste, um dos maiores de São Paulo, com bebidas coloridas, gente rica passando pra lá e para cá, carne fresca de primeira.... Gatinha e novelo...E Ciço ali no meio, como que fazendo as pazes de bombeiro em dia de chamas, prudente com caibro, fita e trena, abrindo caminho, a sair por aquela porta toda decorada, pesada, pra evitar que se vazasse música alta ou a identidade dos fraquentadores chamados pela internet, cadastrados. Tava lá Ciço alinhando o piso, como o homem que forjou os pregos pra cruz, com o diferencial de saber do seu feito ao vivo... Ou para Marília, ou Nise, ou Lina, que o lugar era bar de gente ruim que pisava em gente ruim ou boa que fosse simples, e que gostava era mesmo dela que era assim também, e não desse povo que fala com o nariz ventado e empinado; que o teto estava pra cair e terminou o serviço depressa pra se ir embora dali, que as mulheres de lá não tinha olhado pra estas nunca, porque eram não só a safadeza na forma do cão no quintal como também tão de fachada piores que o buteco, a parecer com homem, de buço, risada alta, cheiro de breja e de cigarro na cara... Ajeitou tudo e se mandou; não sabe o horário que abre, jura por Deus que num sabe a hora em que fecha ,nem vai saber jamais por que vai direto pra casa, não dá conversa por Deus, mulher! Até recebeu o combinado errado pra menos: eram duzentos pela mão e cem pelo trampo, mas não vai fazer questão, pois não sabe o nome do pagador, nem a forma, pretende deixar como está, jura de novo que não sabe... e Marília Nice crê bem sólida; e bufa menos.

Depois da dança do cimento pelo batidão de terra, areia, massa, nível, um ajeita-ajeita, e desse pensamento todo, o feito passa rápido. O povo no farol da Cardeal parece bonequinho de tiro ao alvo; depois reclamam de bala perdida; vem o pensamento besta de fora da gaiola pronde precisa correr logo mais, pra toca de Nise com seu faz-me-rir da função, nem que esse fosse só uma chapinha pequena de dois dentes da frente, uns cinquenta pela mão, qualquer coisa. Aprecia, com certo delírio, a sua obra. Fuma. Presta mais atenção no chiado do próprio peito. Está acelerado. Mas vai se acalmando... Agora merecia o fim do jejum; encontra no espantar da poeira secadas mãos secas tanto um pretexto para bater palmas para si mesmo. Estava entre uma janela e uma máquina de azar quebrada, metendo um gole de café preto no copo, pra meter no estômago, com os dois cotovelos apoiados nela, fingindo jogar e colocando as três frutinhas certas com as mãos. As meninas ainda não chegaram. Ou estão trancadas em alguma máquina por aí. Vai sair em breve, para rever o seu monumento... É o happy hour de quem pode.

E então vem esse que falou por ti, caro Cícero. Não foi por mal que sambei no metal e no mole desse chão que fizeste, e nem esperava, frente tanta dureza, combinada com a falta de luz de um poste, ou uma placa de aviso dizendo: “Saí, Cê vai afundar aqui!”.Arruinei todos os seus planos. Como explicar pra Marília Nise que ficou até as dez só aprumando a massa? Ela não vai ser tão fixa na sua ideia de não fazer disso paranoia e briga, você sabe. E quem sabe, nesse re ajeitar de calçada dê o horário das meninas,e elas entrem, e as medidas do pagamento sejam deixadas por ali mesmo, até às duas? As máquinas funcionam, não são de todo azar, e Cícero fique, vire alvo do tiro do jogo do álcool que o deixa crespo, talvez, tudo por uma péa de atraso?

Talvez ele vire um alcoólatra, ou intensifique o vício, por mim, que só passei ali, em sua vida, por falta de lâmpadas, pra brincar de andar no caminho pronto. Poderia ter passado fora da faixa, ou me portar como as meninas conservadoras da zona Sul, ou da Menck, ou de Taipas, Jardim Caiçara, cantos onde guardar longura da sujeira, do tinho e do tinhoso é o que dá a alma fundura. Mas fui eu, anônimo também para ti, um doido talvez, um corno, certamente, que ficou glorioso na tua fala e ira por semanas, e ficará, para sempre em sua dúvida se o acaso do rumo de vida que tomou foi seu mesmo, doido como eu, e talvez corno, secretamente, ou se foi meu o desterro de lhe catucar a vida, graças aos meus quinze segundos de distração nos meus pensares moles. Tudo misturado à massa. Mil desculpas, pedreiro José Inácio, sequemos no começo.

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