13 de out de 2012

Agora é noite, quase dia, e a incipiência da claridade na réstia construída no vidro do banheiro faz lembrar saudade; da que não sabe se quer de fato o dia. Uma certa canção ruiva e comercial, mas nutritiva, no dial do FM, com os versos de que houve outra estação na estática apatia da não-mudança da dor, na dança de um silêncio que se repete por não ter mais como se dizer, a perda da autocrítica no desespero, torce o pouco pensamento em ruído espesso, e esse ruído na vontade de pensar nesse frio tormento de sol chegando entre nuvens, mais uma garoa, nesse quase tal de Por enquanto .

O namoro incipiente tem mesmo, como noite indo pro dia, dois movimentos. O de ficar e o de ir. O de ficar, que é o de êxtase transformado em extasia, é o do carrapato, que chupa tudo e engorda da caça, dorme apoiado na farsa do trabalho do roubo, finge que explode quando ela ameaça partir de vez, se enruga, murcha, até que o couro do outro por alguma pena sucumba de novo, de novo, e de novo... Carrapatos se nutrem não só do líquido vermelho do afeto, mas também da bondade sem freios do ente que vive como um alvo seu no pasto, vez ou outra abanando a cauda, mas nunca sacudindo de veras para que o dependente da paixão se caia. Amor muge e dá em bandos. Quando estoura é fácil ser atropelado por ele ou por uma de suas reprises erradas, principalmente em imaginar que se pode contê-lo, como o faz o boiadeiro ou o Peão. Mas se sabe que o bicho indecente e minúsculo não pensa, não se mede, não quer se pretender igual; não existe laço, pois é ele mesmo corda, nó e laçado. Para sempre.

Segue desse jeito até que um dia, garantido alimento farto, certo do seu destino de ser o sangue-do-sangue do outro, mais que irmãos, se descuida e cai na grama, e perde de vista o amo que some. Lentamente acorda com um número errado, gosto azedo na boca e uma casa sem mobília. Nem os quebrados de Real se encontram: móveis das brigas e camas das madeiras baratas relincham sozinhas. Tenta procurar na geladeira uma lembrança, um pouco do sangue; na agenda busca eventos com outras mulheres parcas; tem más lembranças de todas, e nutre-se agora do restante da que se foi, em conserva na sua memória e nos vagos fios que digere de macarrão em lata. Terá que se acostumar com tudo assim. Congelado. Se sabe que não... que não pode viver como um inteiro o que só aprendeu a ser um e meio, a ser o meio do uno outro. É impraticável sugar a própria lembrança e tirar dela o denso pó de pelos de barba crescida e suja, por se esquecer de si por tantos anos, todo santo dia...praga por praga, um a um...

O de ir é o de fato o vai-vém da cauda pros espancos de ameaças fajutas, de quebra de objetos quebráveis, quadros, cinzas do cinzeiro, quadros poucos valiosos, carrinhos de bebê, garrafas vazias de quaisquer droga, aquários vazios, discussões, calmarias...O de ir é o para sempre, na vez acidentada última, quando nota o de-ficar carrapato caído e salta depois de ruminar desejos e descambar à cerca. O de se ir é o para sempre do sempre durar até a véspera de Natal, quando se cria juízo e uma avó, já morta, donte pra visitar. O interior é longe e os fios não se conectam bem... Não há como telefonar para fora nessa distancia braba, e geralmente falta luz; tentar sair dessa cidade calma e imaginária é se lustrar com barro, é o que geralmente se alega, e o escape pro mundo se faz pela carestia das fichas. Estamos em Dois Mil e Doze... Se emenda o calor de Janeiro no pré-luto dado de certo, e o Fevereiro no carnaval das mágoas, e ela fica um pouco mais. Se afoga toda a dor da mente num Março de Águas, bem peto de Junho, Julho, Setembro das flores apertadas numa quina, um outro número de telefone escolhido ou telefone nenhum, pra nunca mais voltar. Correm pelas guias amarelas e cinzas e por entre as máquinas as águas da liberdade do degelo, e em algum canto da cidade um parasita murcha de desencanto e lágrima sem o guizo.

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