30 de ago. de 2011
Fotos
Cada pensada é um olhar só
como vai o da fotógrafa, que registra tudo e ama
e não sabe qual dos dois amores vem nela primeiro,
se o de ver ou o de pensar;
ou o do maquinista,
que em cada ato
em cada parada do trem,
projeta como imagem sua
o seu amor todo proutro lado:
Lado de casa, da família,
se é que ele ainda tem isso,
ou se de tanto ficar ali fechado
não já virou produto passado
filme em rolo ou máquina gasta
a espera de que o troquem.
Horas registro,
horas amo
horas resgato;
se sou máquina, homem ou mulher amada
cada um deles a cada segundo que passa
não me resta outra palavra
que não seja a da foto
que não seja a da lentidão indecisa, magenta,
acinzentada.
28 de ago. de 2011
... II
Super-Egg
Parte I
Ego e tormenta
Sessão II
Uma semana de papel, doente e fraca, passa rápido; isso se descarta como folha branca recém-usada. A gente acaba voltando, revoltado, mesmo quando não gosta da coisa, ou quando a coisa não vai muito com a gente, não sei por qual motivo; mas quando se está em branco como essa página foi um dia, qualquer vento te leva pra um turismo no esgoto mais sujo, que aos poucos vai ficando aceitável pelo costume até que o nojo se torne nosso primeiro e último amor. Sem ter o que pensar estava eu outra vez dividindo a sala de consultas usada para que os estagiários da clínica psicológica praticassem suas venturas. Eu estava na frente do mais frio monumento visto pelo homem desde que olho e homens há; perto do mármore fundo e escuro no qual estava talhado o corpo e as ideias de Grajew. Aquilo que era mais ou menos um encanto, mais ou menos um todo. Gelo. Um Gelo-corpo.
O gelo, então, batendo em copo vazio à espera do gim ou do suco, caiu derramado em mim; ela finalmente perguntava algo muito doce e profundo, uma coisa que não existia nos livros e manuais de nenhum cata´logo de loja ou biblioteca; não era frase histórica, cheia de barulho mentiroso pra abrir muralhas fortes, nem a palavra do frade ao moço novo, que lhe dá a última chance para que se arrependa antes do “sim” maligno e eterno. Era a voz mais grossa e dura, de vez, pra falar de maneira pura o inefável nome do princípio agradável e amistoso de papo: “como foi a semana?”. É claro que digo que isso tudo vai passando descrito como só fosse uma bíblia toda em traduções de monte revisadas, e diminuídas, e aumentadas demais, nunca chegando ou permitindo o repouso do escrito sobre o certo, mas, como é, se passa em milésimos de segundos, sendo que a palavra dita mal ter haver com a pensada, que nem sequer pra escrita arrasta mais que qualquer migalha de tudo que coloria o sofrer. Ela abriu e fechou num ritmo paulistano e macio a questão de mim, não sabendo eu se era o sinal de que o gelo tinha cansado de ser gelo pra virar refri ou bebida mais forte, ou só um atalho imenso, daqueles que todo mundo, ou quase, faz para encurtar a monotonia da vida, seja paciente, seja terapeuta.
Olhos baixos novamente. Trabalhei o dia todo antes do encontro os pensamentos; alinhei cada puta palavra, sem palavrão, com retidão, em barulho; um legítimo midle class, meio íntegro, meio atento, meio belo,todo em nata, um nada. Era esse o tipo que convinha à Grajew ver em sua consulta com mais de um em tantos outros, imagino, necessários para lhe completar, se não em experiência de parto e de vida, ao menos a carga horária de estágio na clínica para que se formasse um dia; seria uma midle class completa e escrita, graças ao meu silêncio filho da puta. Repetido palavão. Hoje ela está possivelmente menstruada, pensei; não sei por que causa pensei, talvez seja só a perversão crua e mais instintiva do inconsciente, ou apenas canalhice do supper-egg, a frágil casca do ovo que separa a gente do bichos menos repletos, da gosmenta e estranha verdade, que de provável também seja amarela como a gema, ou mais vermelha e tensa até, como o desnascido embrião do galo ou do pássaro, vai saber (…) Força interna é, da mais sincera, assim como o cão fareja a sua pareia no deserto eu sentia sinistramente o mediúnico fato, sendo bastante um mágico, sensível muito mais pela prática diária do que por qualquer dom(...)
Queria muito que ela desfizesse esse círculo, que ia como refrão de qualquer tipo em minha cabeça, que repetia rimando em perfeição o são: são, ssão, o ção, truação... Aquele pensamento ordinário e safado de antes que ainda ficava; quando tentava ir prum assunto mental capaz de conciliar os diversos lados da motosserra existência minha, fazendo muito claras a sondagem sobre o gelo, o passeio nas distinções de cada peça de roupa, de cada célula morta, de cada jeito desatento e desinteressado de se portar daquele átomo bem pequeninho, bem terreno, perto demais dos outros pra chegar à ideia de si mesmo, mas se querendo fugir lá da laje da biblioteca do prédio vizinho...Minha espiral, mais sem nexo que o tudo, fazia meu impulso derreter qualquer elemento material, qualquer figura que pudesse ser calculada com exatidão, ou mesmo a distância mais banal, das medidas à trena ou fita eram todas e todo, que já me perdi na fala, de só vontade infinita de ficar ali planando, ignorando as coisas feias desse mundo e entrando mais uma vez, com a voz do quieto de Grajew ao fundo, na balada insana e culposa-doce do “São-ção”, como se me desviasse daquela frieza toda de mulher séria(...) Dito e a sessão termina sem ferimento ou lágrima.
27 de ago. de 2011
O tédio me comendo solto II
Mais uma vez, tento restaurar tudo o que havia perdido. Essa memória persistente de quem, mesmo sendo incapaz de esquecer uma só vírgula, sempre se rói e se deixa consumir pela vontade de deixar qualquer coisa gravada, faz com que eu recorra constantemente aos excessos da prosa prolixa, ineficaz. Talvez isso seja um exercício a mais, uma punição que denúncia minha instável relação de psicodinâmica com os restos de mundo e de mim.
Essa entrega aos parágrafos largos, aos projetos medíocres de conotação pseudo-ensaística nada possuí de substancial; de algo que possa ir além de sintomas coléricos de ansiedade e de ócio. Creio que admitir isso seja um passo bem importante para me livrar do peso diário de ter que abrir meus antigos documentos, e de maneira amarga me confrontar, obrigatoriamente, com minhas conclusões a respeito de suas efemeridades, tanto de tema, como de estilo e linguagem. Um balbucio de menino que treina suas primeiras e inconclusivas sílabas, uma ameaça de morte vinda de um malandro de mentira, uma cantada vaga na moça inatingível, dada no fim da noite pra somente cumprir a si mesmo a promessa de tentar e dizer.
A essa bala que chicoteia, mas não atira, a esse festim gráfico a que estão resumidos os meus vadios relatos resta dar um encaminho correto , menos incômodo e agressivo. Minha letra me faz lembrar um resíduo perigoso, do tipo pilha ou bateria, que não pode ser jogado na terra, sob o risco de matar tudo ali existente, além de não permitir que por séculos algo de vívido venha renascer. O que resta agora em mim é reciclar a alma pra servir-me de religar ao tudo.
Ao som de "When I'm Sixty-four"
Aqui estou
eu velhamente de novo, marrento com o mundo;
reclamando por tudo
Doido de vontade de fazer frear
a rota louca
do absurdo.
Me acontece que mal sei
se o enganado certeiro me cruza
pra retratar com olhos feros, fazer barulho com coisa curta.
Tolas são as marretas com que minha boca xinga
que de tanta espera pelo certo,
se batem tanto, por toda a vida.
Um outro nome pra dor I
Lá fora as luzes não têm fim
cruzam no meu céu calado os futuros discos,
os frutos benditos do meu maldizer;
Afoitas por cabeças espreitas,
foices de chafariz.
Arara, piaçava,
vassoura e metrancas bravas
libertam tudo para que não sobrem corpos,
para que não subam almas.
Alfaiates, alferes nojentos
vão tecendo o barulho e o fogo,
de conforto estrondo, de confronto lento.
Momentos magnéticos que atraem a agonia
e os fluidos elétricos,
desligados do sangue perdido na madrugada...
Lá fora, as tais luzes de novo
partem os véus do futuro misto
os futuros mortos, e das futuras ideias;
por dentro correm só
suor seco e gelado
gemido confuso, gargalhado.
Tem um soluço oco no meu portão
e uma poça de ecos ao fim da estrada.
Muitas sirenes, muita correria;
eu já parei, já vivi
e já quis morrer de cego,
de tanto notar os castigos
e de ver os escuros traços,
cada vez mais nítidos,
deste nada tão antigo.
24 de ago. de 2011
Provérbios, parte I
"Nós amamos as coníferas canadenses como nossas irmãs, mas condenamos com veemência suas práticas promíscuas fotossintéticas, bem como a heresia capital do autotrofismo".
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