9 de mar de 2013

Complexo Vira-latas


Esse olhar do cachorro é um emblema de muita coisa, não necessariamente minha, certamente, e agradeço por não ser assim, comigo a tortura que abala vidas outras por aí.

 Pode parecer cafona considerar, mas nessa imagem tem a tentativa amiga e triste de um ser que tenta optar pela sua dignidade, apesar de tudo... Há de se lembrar de que nós, criadores da dignidade, detentores desse monopólio moral (da palavra, do gesto e do seu cínico não-cumprimento) não resistimos ao corrupto no primeiro sinal de indigno, do desleal; ao surto que publicamente comprovem ser verdadeiras todas os chicoteamentos, todas acusações -verdadeiras ou falsas, isso mal importa-  que nos foram dadas.

 Cada qual com seu nível de tolerância ao frio, ao mofo e ao relento.... Até que se explode, após uma grande preguiça pelo intacto, o animal. Passamos a realizar uma "vitimização ativa de tudo", em que, se não somos boas peças, como diz a gíria, passamos a agir do pior modo possível para justificar a agressão sofrida e o mau nome tanto dado; assim é que se criam círculos perpétuos punitivos e de auto-puinção.  O marginal assume a margem que colocam sobre o seu couro pra tentar  se situar nesse mundo dos papéis: eu roubo, tu sofres, eu minto, e nós condenamos. 

Vós, que sois deus, é o único que pode ser unidade e fragmentação ao mesmo tempo, parte e todo, e ir brincando de sofrer, sendo eterno, imutável das coisas e das situações, incluíndo a de si mesmo...  O restante sofre, e essas idéias vão doninando nosso comportamento... 

E nascem os redutos das pessoas ditas impossíveis, esquecidas, as prisões, as casas de abrigo, as internações forçadas; a vítima, muitas vezes, é oriunda (palavra chique , pero no mucho!) do papel que assume, uma contradição sem igual, da menina que repete o estigma da família, da criança avoada que vai avoar para o resto da vida, já que o único trato dado desde sempre foi esse.

A vitimização ativa é também uma forma de acalento. Afinal, o mais interessante é pertencer a uma família do que não pertencer a família alguma. Quem não aceita a tortura de se tornar o quadro da que vai engravidar aos quinze, pois o "sangue a chama", nem do sem-futuro, cuja única sina será o crime, tem que fazer um caminho obscuro de solidão e desamparo sem igual, sem referências, sem o costume de se ouvir que presta pra alguma coisa nesta vida .

E se essas pessoas, anormais por essência e por julgamento alheio, encontrassem o segredo permanente, responsável pelas suas vidas; o segredo da palavra da auto-determinação? (momento auto-ajuda...zzz ). E se mantivessem no olhar a contrária sina e fossem  felinos canis, calmos festivais, palhaços sisudos, artistas industriais, músicos feios e surdos, poetas, pedreiros de fornalha de comida ligth, coisa sutil qualquer?

 Mas a dualidade vítima-algoz, dualidade de poder, dá voz só ao que fere, fazendo de nós cães dependentes de um afeto que machuca. Impede malabares. Da dor somos nossos impróprios sútidos.Somadores crônicos do Onírico ódio do outro por nós, e o de nós mesmos pelo nosso, complementar defeito auto-imune, arrasador. (momento poesia, para compensar...)

E, assim mesmo, mordemos mesmo que faltem os motivos, que podem não ser expressos de maneira clara. Uma resposta simples e possível de se pôr nesse mundo de oposições. E, pior, só podemos reconhecer o erro caso não erremos, ou seja, caso consigamos abrir caminho por entre o fogo dos maus-tratos e do descaso do meio social em que vivemos e atinjamos o sol com as próprias marcas. Um lugarejo novo para o amor, longe daquele de acatar a mordida que os imundos nos dão. Não, não seremos rábica, mas coração. (momento romance, pra desconpensar a poezzzia... )

Mas, voltando ao dog triste da foto, esse cão que nunca pôde pensar nessas coisas todas sem sentido de que falo, de voar para longe e existir deveras, nem se ressentir contra a estupidez e, estupidamente, abraçá-la, como fazemos, poderia ele ter morrido, considero, pelas mãos de seu instinto, apertando as mãos do homem estúpido que o humilhara e mordiscando as duas, como navalha, despertando nele a ira que faltava para atestar o pretexto e assinar o fim do seu ciclo. Mas recusou-se, e muito. E esse é o seu vôo, é o que a sua espécie permite de resignação afetuosa, balançar eventual de calda, coceira, medo ao atravessar as ruas... Uma vítima digna.

 Tomara que ele tenha conseguido superar esse trauma de gente. E devote ao tudo esse olhar imune de quem vai querer viver para sempre, apesar desse tudo que a ele fizeram, e comova mais.


 Imagem Tirada do:

Arquivo do blog