8 de jun. de 2014

Pra valer (RioTietê)

Pra valer (Rio- Tietê)


Em dias assim o rio fica frio
como cactus de águas por dentro e mais nada

Alegre imagino ao punir a cidade com seu desbrio

Mais de um console na realidade
sem redes pra jogar
rio de verdade

rampas num rio concreto
sem ancas

rampas num rio reto
repetido
sem plantas
pousam a mil metros pássaros rasos
e bolhas ...

(O tietê é um rio forte
palavra sem aspas
sem sentido, de boca de doente)

como que caminha devagar sob o luxo dos prédios
(mas é fusco) ...
como caminha devagar no lustre das pressas

é lento assim... leito de fato
rio de verdade, contém o caos


Pra fingir sem cais o nexo de metrópole
de fio chato
sem Seine, sem Volga e sem farol

gargalho de nosso presídio

já de noite some sem azul-marinho nenhum


Desde que vejo o tietê
não o vejo
só reta e lux

seta e luz para longe

e se deita

dieta o medo de estender seus braços, que mais?

O sol se enfeita* para onde vai o Tietê
e persigo teus sonhos limpos,
nossas imaginações.

gea, frio, e nem sol de faca redobra essa água. Faz manha.

disseram nojo no concreto limpo

rampas nos meus olhos de frio
cercados de rio
curiosamente **







*se queixa
**loucamente

Juliano Salustiano







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28 de abr. de 2014

A m a R


Amar.





Amar é topar-se

de frente

em um corredor sem transversais



Só a luz

ferindo de uma casa

cujas janelas mendigam

a todo custo a alvorada



Passa e

Nunca desiste de vê-lo em névoa

embora sempre se deseje evitá-lo



O por

do sol que dá

tantas poesias

não nos dá sequer saída



Música nova

e no dizer puro não é assim

para se dormir juntos, quase sem ecos.





Amar

5 de abr. de 2014




Eu não quero mais

botas

olhares

óculos

lares, por mim atravessando;

tantos olhos

de rios por mim lavando

para quem eu deva de dizer, com dor

atreva me a dizer, de dor

que a amo;

A minha verdade é uma lâmpada acesa no cais:

eu não posso mais entrar no continente,

nem vazar escorregando pelos mangues e limos

como alma penada

ave sem caneta e máquina de escrever

sou cooptado a digitar calado

debaixo das cascas de lastros um novo país

que saiu errado.

Nada de bom que rime obrigado pode ser legítimo

a não ser que meu ódio íntimo

me reobrigue a gritar,

E o teu nome?

chamar-te assim, no meio em luz onde ficou deitada

Amada dor cintilando em baile de branco

seja o moído que não sobre nada

nenhum dos teus dentes incríveis

pra cujos rangeres eu preferi ser surdo

Ou mesmo na alegria, de ti eu não serei sócio -

eu vou fugir com o real amassado nos meus bolsos

sem medo de ser omisso e só te tratar com fel.

Os declives das ideias vão ficar presos só em mim

para maquinar a qualquer raiva que me possua e não divida

brilhante e solitária

que fique o meu tudo que se exploda como tormento diário;

Um regimento a meia bomba

um gemido sem diâmetro no teu peito absoluto

um dia inteiro a te esperar

como se nada fosse curtir com o sol

quero a paixão ébria de te confundir com os vermes

e veja, enxergar em cada nuvem o risco do teu destino

se despindo como a mudança violenta, mas de costume do tempo

e pouco além disso:

Hoje é um dia que eu olho para essas estrelas ...

como me prestam essas estrelas de cacos

e em algum lugar, uma homenagem tua pasta...

e não,

Eu não quero mais.


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3 de fev. de 2014

LU


LU   A



Noite e ela, esfaceladas,

Lu em minha consciência

acende um fósforo em

noite e luar do lado esquerdo da janela de minha faculdade; milhas de

mim.

Sob Lua tenho de dizer, a que sobre ella

uma mujer que eu vi de terror e sombra disfarçadas

fazendo poesia morta para conquista dela tudo, de duas, e três que se misturam:

foi premero Longa e nova,presa e risente

depois broncha,como escova, e longa, seus cabelos, cheia

até os dias da minguada surpreendente de seus nenhuns cachos, afastos

e cortes, morena branca, de cactus nos rostos, cheio de furos

súbitos de quem gargalhava de sumir,

e eu vante por por de trás dela...

e negro em volta,

esperei sair na varanda

para minguar devagar também de suas cadeiras, cabeceiras do teu corpo

Trouxe as brejas e o fumo;

não pitamos -

O gelo não demorou a se derreter

O seu choro largou naturalmente

depois que obrei seu pescoço com escadaria e andaime ...

e eu perguntei se olhos pra quilos eram, tanto peso

Lu, sem maquiagem...nem pra me borrar

nem pra me explicar

com Mirra

o caso de minha língua ter ferido seus tratos

do desespero e censura que faria

talvez riria

ou me assombrasse com a luz dos postes dos caros carros nos olhando

e garfas de cerveja barata

frias como teu pescoço e ombro

frias como teu jeito sem sol

e não conseguir desvirar ela

desvairar ela... a sua sincronia

fria...

em me deixar na cor do dia e a madrugada solitária ,

vindo-se:
 
enquanto eu caminho para tomar o ônibus turvo

nem pra trás eu olho...

nem pra cima eu olho....

que Lu é nova

do outro lado da rua....
 
doce é amar o que se regride....
 
e ficará tudo nublado de repente.






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1 de fev. de 2014

Caça




Caça





Está terminando Janeiro

é tempo de caça às mulatas …

os vestidos já estão quase prontos,

descompridos,

são de vento e tapa sexo

O Seu quadril bem tipado, examinado fica

como pistão de uma máquina a vapor

suada,

seu combustível é a luz vermelha da câmera...

até ficar cansada, todinha, por dentro

a nossa mulata

Vai laçada de corda, cordão frouxo

os cachorros babam e estão soltos

em seus peitos,

ela pois esta livre

no meio do povo

cheio de veneno no olho

querem olhar se é legítima,

querem fotografar...

sabe posar?

Tem dentes tratados no mês de de Dezembro, vê-se.

Brancos.

Unhas dos pés bem feitas como a garra da Águia do México

parceladas;

tem que ter bumbum de ouro também, tem de girar

e o seu cabelo repica no meio de luzes temporárias

e as porcelanas firmes e finas encantam o camarote Brahma

foscos de flashes que lhe fazem cair as lágrimas e fulores no chão

serpentinas teu corpo no chão

serpentinas lustres, dos altos dos sapatos

hão de ser abandonadas com o dia da varreção da conlurb

Até que termine a temporada

e a luz mal paga das roupas cheias de babados

e vassouras e escovas permanentes

cubram seu gingado e se esconda junto com o carro ...



E pedem, devagar, agora, que se vistam suas armações, suas canelas secas

seu gliter sem fome;

os cães retornam às coleiras

sabem que isso não é original pois lamberam tudo;

tem mais caças por fazer

e até a marginália cheira

quando a caça vai-se fora pelo rumo das pacas

com suas duas coxas, duras no escuro sem brilhar,

peida o barulho de escapamento de moto do seu lado e diz: preta! Sobe aí!

Ela aceita, porque a rua é estranha e matagal...

o lugar é tão estreito que melhor não recusar de esquisitos boa fé

e lembra-se da larga avenida

não consegue abrir o sorriso

se retoma de filhos



da falta dos sisos

dos pais mal escolhidos

até se esconder

nas suas fotos de menina-homem

batendo lata e matando frango … no beco do adeus



de molho

de volta

com as chaves de casa

balançando

tique-quicke-tique-quicke-tique-quicke...



ao seu barracão, lá longe

Está terminando Março; e anonimamente ela.
Fonte da Foto:  Jornal Extra Ed Online, 09/03/2012 :

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27 de jan. de 2014

460




460



São Paulo do meu comichão !!!!

quantas areias da minha sunga saudade ;

São Paulo do meu comichão, caminhão

donde Brookfields brotam em árvores augustas

aromas de Cyrelas e Setin

das suas torres de Jacarandás tortas

q se já (se) foram

Perdeu-se a carga da maconha dos protestantes-contrarreforma

e ficaram todos tontos na festa e esqueceu-se...

São paulo comichão da minha vida !

(Minha casinha resiste na vala)

que imito e insisto todos os dias

com as batatas e fendas

Passeio de Breque pela cuidad

que se transtorna com desculpe-me o,

transforma-se, quando piso nela

não sei dizer :

San Pablo com calma e concreto

àquela minha amiga mexicana

nem no dia do seu aniversário .

O meu coração é enorme

e os ratos também

Ainda há sol na cabeça de quem não conseguiu encobri-lo ;

O meu coração é enorme

e os ratos também

repito!!!!

de se soltar o reboco da minha cara – ó !

o rato grande entrou na boca sem dente,

depois de se enrolar na perna do taxista,

a temer o hospício de gente

formada

na capital …

São Paulo

come chão

da minha vida!

Alstons de odds Miragaias e Camargos

e Correas

Margaridas surrando o chão com brocas

quedas

quedaste, São Paulo na minha confusão

São Pablo,

militares no centro

me coço

São Paulo da coça nos hotéis e das onças extintas por cacetes

cassetetes

rugem seus espíritos doidos na lândia das cream crackers

da Helvétia …

São Paulo, comichão da minha vida!

Te parodio toda, para não odiar-te

(Ah! Metrópole!)
 
 
 
 
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20 de jan. de 2014

Gonzaguinha e eu


 
 
 
Hoje percebi que eu queria ter sido o Gonzaga Jr. (sem risos) O homem era um Chico Buarque Chupado, um cão do avesso de feio, magrelo, duro; por isso me identifico; teve uma fase de amargor musical, em que subia demais o tom ao falar dos dramas deste terceiro mundo (coisa que eu discordo) até ir encontrando, frase a frase, o melhor tema para cada acorde. Não, não sou perito; não escrevo livro de crítica musical; estou de LP em LP, na fase rancor ainda, mas por spoiller, assim dizendo em inglês, sei do que virá e será uma das viradas mais fortes que um compositor brasileiro já apresentou.
 
Mais do que isso, Gonzaga conseguiu produzir uma obra que se destaca francamente da de seu pai;  um, inventor de um ritmo que apresentou o Norte ao Sul do Brasil, buscou na itinerância de seu xote, xaxado e Maracatu no Matulão (como o próprio Lua gostava de dizer) a franqueza e a despretensão de uma quase invasão Bárbara naquele Rio do final dos anos 30 . O outro, criado no fixo morro de São Carlos, lugar onde a solução para tudo é apenas sobreviver ... (e assim é em toda periferia) teve na primeira infância a visão sem heroísmo da opressão; depois disso, o internato para "salvá-lo" da malandragem contribuiu para a formação sem esperanças do jovem Gonzaga: o Mundo talvez fosse todo um grande morro a descer...
 
Para piorar os prováveis sintomas persecutórios do artista, nada como uma perseguição real para demolir esperanças. Se em casa as coisas não eram boas, nas ruas o Golpe de 1964 foi o ponto crítico que definiria Gonzaguinha como artista, pelo menos naquele começo mais "folha seca". As opressões foram um Norte em sua vida, enquanto que para o pai, sempre pareceu que os carácteres duros dessa vida precisassem ser transformados sempre em pulsões e projetos artísticos considerados  positivos pela indústria do disco e do rádio e, portanto, "alienados", aos olhos do filho. Eis a querela ai? 
 
O que dá pra inferir  é que o moleque Gonzaguinha teve o tempo necessário para acertar-se com o pai, e esse acerto parece ter vindo muito mais da necessidade de perceber que as relações mundanas, apesar de representarem o nosso diário açoite, não podem se sobrepor às necessidades de movimento humanas típicas do afeto. Sempre me lembro disso quando ouço a clássica "Vida do Viajante", cuja letra trata desse acúmulo de experiências frente a adversidade, não importando o universo natural e externo. 
 
Outra razão para que eu tenha querido sê-lo, no dia de hoje, é o fato desse compositor ossudo em face e bigodes oferecer sempre perguntas, poucas ou nenhuma resposta. E vida ser a palavra mais aclamada e repetida nas suas canções. E até para ela ofereceu a célebre pergunta: O que é, o que é, meu irmão?
 
 
 
 
 
Juliano Salustiano;

Créditos do vídeo ao canal:
 
 
 
 
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